Lógica: Alguns Conceitos Básicos

Eduardo O C Chaves


1. Segundo os princípios básicos da lógica:

A. Um enunciado é ou verdadeiro ou falso -- não há terceira alternativa (Princípio do Terceiro Excluído)

B. Um enunciado nunca é ambas as coisas, verdadeiro e falso (Princípio da Não-Contradição)

C. Se um enunciado é verdadeiro, ele é verdadeiro, sempre; se ele é falso, ele é falso, sempre (Princípio da Identidade)

2. Diante de um dado enunciado (chamêmo-lo de p), é possível assumir uma, e não mais de uma, dentre três, e não mais de três, atitudes:

A. Aceitar p (acreditar em p, crer em p, considerar p verdadeiro)

B. Rejeitar p (não acreditar em p, não crer em p, considerar p falso)

C. Nem aceitar nem rejeitar p, suspendendo o julgamento (nem acreditar em p nem não acreditar em p, não se comprometer nem com a verdade nem com a falsidade de p)

3. Em qualquer caso, uma dessas atitudes será mais racional do que as outras. A racionalidade, aqui, é uma função da evidência disponível.

4. É possível que a atitude mais racional venha a se mostrar errada. É possível que uma pessoa X corretamente conclua que a evidência disponível num dado momento dê sustentação a p, (e, conseqüentemente, X aceita p) e que, depois, descubra novas evidências que mostrem que p é falso. Se X é uma pessoa racional, X, nesta hipótese, muda de atitude, e passa a rejeitar p.

5. Uma pessoa racional pode suspender julgamento quando há alguma evidência a apontar tanto para verdade como para a falsidade de p. Se não considerar que a evidência permite determinar se p é verdadeiro ou falso, uma pessoa racional suspende seu julgamento em relação a p, até que a evidência a convença da verdade ou falsidade de p.

6. É preciso distinguir esse caso daquele em que é feita uma afirmação gratuita, ou seja, em que alguém afirma algo sem ter a menor evidência para o que afirmou. Neste caso, uma pessoa racional não precisa suspender julgamento, podendo simplesmente rejeitar a afirmação feita, por gratuidade. Este é o caso especialmente quando a afirmação é de que algo existe, pois é logicamente impossível provar que algo não existe. Neste caso, o ônus da prova recai sobre quem faz a afirmação de que algo existe. Se ele não apresenta evidência em favor de sua afirmação, ninguém precisa aceitá-la, nem é racional suspender o juízo, somente porque ele a fez a afirmação, gratuitamente.

7. É preciso distinguir o fato de que alguém fez uma afirmação do conteúdo que ele afirmou. Assim sendo, eu posso aceitar o fato de que o Presidente Collor afirmou que a inflação vai baixar (porque tenho evidência de que ele afirmou isso, tendo-o visto fazê-lo na TV) e ao mesmo tempo rejeitar o enunciado "A inflação vai baixar". Trata-se de dois enunciados.

O primeiro enunciado é:

A. "O Presidente Collor disse que a inflação vai baixar"

O segundo enunciado é:

B. "A inflação vai baixar"

O primeiro enunciado pode ser verdadeiro mesmo que o segundo seja falso. O primeiro enunciado diz respeito ao que o Presidente Collor disse. O segundo diz respeito ao que de fato vai acontecer com a inflação. (Problema dos nativos que sempre mentem).

8. Quando alguém faz, com sinceridade, afirmações sobre suas próprias crenças, é virtualmente impossível refutar essas afirmações. Se alguém diz, sinceramente (i.e., sem estar brincando ou representando uma peça), que acredita que a capital do Brasil é Buenos Aires, é virtualmente impossível provar que ele não acredita, embora possa ser fácil provar que Buenos Aires não é a capital do Brasil. É preciso distinguir, aqui também, duas afirmações:

A. "Acredito que Buenos Aires é a capital do Brasil"

B. "Buenos Aires é a capital do Brasil"

O primeiro enunciado é sobre a pessoa que o fez, sobre o que ela acredita ou deixa de acreditar. Ele se refere a eventos na mente da pessoa.

O segundo enunciado é sobre que cidade é a capital do Brasil. Ele se refere a fatos não-mentais e objetivos.

9. Por isso, é muito difícil refutar afirmações que são feitas, não sobre a realidade, mas sobre impressões mentais que as pessoas afirmam ter da realidade. Se alguém afirma que determinada superfície lhe parece áspera, ele não está fazendo uma afirmação sobre a superfície, mas, sim, sobre suas sensações mentais. Sua afirmação pode ser verdadeira mesmo que a superfície seja bem lisa. X pode parecer lindo a Y mesmo quando X é bastante feio. Aqui estamos lidando com o problema da aparência e da realidade.

10. É possível definir conhecimento como algo que se passa na mente das pessoas (algo mental e subjetivo) ou como algo que independe do mental (algo objetivo). No primeiro caso, conhecimento será visto como uma forma de crença. No segundo, não.


© Copyright by Eduardo Chaves


Last revised: 02 May 2004