Um Esboço de Filosofia Analítica da Educação
Eduardo O C Chaves
[Texto CLARAMENTE em Elaboração]
I. Introdução
1. Objetivo Geral do Livro
George F. Kneller, em seu livro Introdução à Filosofia da Educação, corretamente observa que "se refletirmos sobre o significado da educação para a vida humana, teremos de, mais tarde ou mais cedo, considerar filosoficamente a educação". A razão de ser dessa observação é óbvia, mas principalmente nesta época de meios cada vez mais aperfeiçoados e fins cada vez mais confusos, é conveniente reiterá-la-la:
"Para educarmos os homens de um modo sensato e esclarecido, convém saber no que queremos que eles se tornem quando os educamos. E para sabê-lo é necessário indagar para que vivem os homens -- ou seja, investigar qual pode ser a finalidade da vida e o que ele deve ser. Portanto, devemos também inquirir sobre a natureza do mundo e os limites que este fixa para o que o homem pode saber e fazer. A natureza humana, a boa vida, e o lugar do homem no esquema das coisas estão entre os tópicos perenes da filosofia" .
No mesmo sentido, afirma M. V. C. Jeffreys, em A Educação: Sua Natureza e Seu Propósito:
"Se pretendermos viver de maneira inteligente, teremos necessidade de uma teoria não apenas para este ou aquele empreendimento em particular, ou para uma determinada espécie de atividade, mas para a existência como um todo. Carecemos, caso nos seja permitido utilizar uma expressão antiquada, de uma filosofia de vida. ... O que acreditamos em relação à natureza, propósito e métodos de educação é inseparável do que acreditamos com relação à vida em geral -- isto é, caso haja coerência e integridade em nosso modo de pensar. É, por conseguinte, impossível propor uma teoria de educação sem declarar, implícita ou explicitamente, nossa filosofia de vida geral e pessoal" .
Se isto é verdade, então a conclusão (tirada por Frans de Hovre) é que "as grandes batalhas pedagógicas se travam fora ... do campo da pegagogia propriamente dita" .
O objetivo geral deste livro é despertar nos leitores a percepção da necessidade de elucidar e avaliar suas convicções e pressuposições básicas -- sobre a vida, mas, especialmente, sobre a educação -- e orientá-los numa reflexão filosófica sobre as questões colocadas por Kneller e Jeffreys.
Contudo, para que possamos refletir filosoficamente sobre a educação, como bem nos lembra Kneller, temos que entender o que seja refletir filosoficamente, em geral. O que é filosofar? Como a filosofia se distingue da ciência e de outros empreendimentos intelectuais que se propõem a refletir, em muitos casos, sobre as mesmas questões que são objeto de reflexão da filosofia?
Por conseguinte, o livro começa com uma breve introdução à filosofia para, logo em seguida, entrar na discussão do que é a educação. Todo o livro, na verdade, é uma longa discussão do conceito de educação. Nele discutem-se as semelhanças e diferenças entre a educação e outros processos que podem lhe parecer afins, como, por exemplo, socialização, doutrinação, lavagem cerebral, ou mesmo treinamento. Também analisa-se o papel do ensino e da aprendizagem na educação. Investiga-se, a seguir, a relação porventura existente entre a educação e grandes temas com ela relacionados (como, por exemplo, conhecimento, cultura e valores). E conclui-se com uma discussão do papel das instituições (em especial da escola) na educação.
2. Objetivos Específicos do Livro
Em termos mais específicos, são os seguintes os objetivos do livro.
1. Levar o leitor a refletir sobre o lugar, a natureza e a tarefa da filosofia dentro do quadro intelectual contemporâneo e a entender a natureza específica da reflexão filosófica (Capítulo 1).
2. Levar o leitor a perceber a importância da epistemologia e da lógica na reflexão filosófica, a necessidade de pensar com clareza e correção e de distinguir entre conhecimento e mera crença ou opinião, conhecimento e ideologia (Capítulo 2).
3. Levar o leitor a compreender a importância da investigação do conceito de educação e a tomar conhecimento de algumas das principais tentativas de conceituar a educação (Capítulo 3).
4. Levar o leitor a compreender a relação existente entre educação e normas sociais e valores culturais, de modo que venha a ser capaz de distinguir entre educação e socialização e aculturação (Capítulo 4).
5. Levar o leitor a refletir sobre a relação existente entre educação e doutrinação, com o intuito de determinar o que caracteriza um processo como educacional ou doutrinacional (Capítulo 5).
6. Levar o leitor a investigar o processo de ensino e de aprendizagem com o intuito de caracterizá-los tão precisamente quanto possível, individualmente, em seu relacionamento um com o outro e em seu relacionamento com o conceito de educação (Capítulo 6).
7. Levar o leitor a refletir sobre conceitos como "atitude (ou postura) crítica", "mentalidade aberta", "autonomia intelectual", "criatividade", "originalidade", "potencialidades invidividuais", "igualdade de oportunidades", etc. e a verificar se, e até que ponto, esses conceitos estão relacionados com o conceito de educação (Capítulo 7).
8. Levar o leitor a pensar sobre a educação em seus aspectos formais e informais, discutindo quais seriam os objetivos educacionais que poderiam ser alcançados dentro da instituição escolar, principalmente numa sociedade informatizada e com sobrecarga de informação (Capítulo 8).
3. Assuntos a Serem Desenvolvidos
Os assuntos a serem desenvolvidos se relacionam aos objetivos específicos arrolados.
No Capítulo I serão discutidas a natureza e a tarefa da filosofia, em, geral, e da filosofia da educação, em particular, e procurar-se-á elucidar a relação da filosofia com a ciência e com outros empreendimentos intelectuais. Adotar-se-á, como ponto de partida, a abordagem da filosofia analítica lingüística, mas com pleno reconhecimento de que este é um ponto de partida, não de chegada. A primeira (mas não a última ou a única) tarefa da filosofia da educação é a análise de conceitos educacionais, em especial a análise do conceito de educação.
No Capítulo II será apresentado um preâmbulo à epistemologia da educação, com uma discussão acerca do papel da lógica e da epistemologia na filosofia da educação. A relação da educação com conhecimento e opinião, verdade e racionalidade, com linguagem, definições e ideologia será elucidada.
No Capítulo III terá início a discussão do conceito de educação, propriamente dito. Procurar-se-á mostrar que as principais definições de educação apresentadas por teóricos e filósofos da educação podem ser classificadas em dois grupos: as que privilegiam o conteúdo, e, portanto, o papel do ensino e do professor, e as que privilegiam o processo, e, portanto, o papel da aprendizagem e do aluno.
No Capítulo IV se discutirá com maior profundidade a visão de educação que, geralmente privilegiando o papel do conteúdo, vê a educação principalmente como a transmissão de valores culturais, ou como umprocesso de socialização e aculturação. Nessa visão, aumenta o papel da autoridade e diminui o espaço da liberdade, a sociedade sai ganhando no confronto com o indivíduo.
No Capítulo V continuar-se-á a discutir o problema, agora enfocando, porém, conceitos que, historicamente, têm sido associados à visão da educação como transmissão de conteúdos: os conceitos de doutrinação, de lavagem cerebral (freqüentemente chamado de "reeducação"), ou mesmo o de treinamento e de condicionamento. As semelhanças e diferenças entre esses conceitos, e entre eles e a da educação, receberão atenção.
No Capítulo VI chegar-se-á à discussão de conceitos classicamente associados ao da educação, como os de ensino e aprendizagem. Os temas principais da chamada pedagogia progressista, com sua ênfase na auto-aprendizagem, começarão a ser abordados neste capítulo.
No Capítulo VII continuar-se á a discutir o problema, agora enfocando, porém, conceitos que, historicamente têm sido associados à visão de educação como processo: os conceitos de "atitude crítica", de "mentalidade aberta", de "autonomia intelectual", de "iniciativa individual", etc.
No Capítulo VIII, por fim, a relação da educação com instituições, principalmente com a escola (e toda a parafernália que isso envolve, como, por exemplo, currículos, conteúdos, métodos, professores e alunos) será objeto de análise. Entre outros temas serão discutidas as teses dos que anunciam a morte da escola e dos que vêem a função educacional sendo cada vez mais exercida por agentes anônimos, a distância, através de recursos tecnológicos sofisticados.
II. A Natureza e a Tarefa da Filosofia
Filosofar é estreitamente relacionado com pensar. A filosofia é uma forma de reflexão. Mas outras atividades intelectuais também envolvem pensar, também são formas de reflexão: as ciências, psicologia, a religião, e até mesmo o senso comum. Como é que o pensar e o refletir da filosofia se distinguem dessas outras formas de pensar e refletir?
1. Uma Primeira Aproximação
O cientista natural pensa e reflete sobre algum aspecto da realidade chamada natural. O físico encara essa realidade do ponto de vista físico; o químico, do ponto de vista químico.
O cientista biológico pensa e reflete sobre a realidade viva, orgânica, isto é, sobre animais, plantas e outros organismos.
O cientista social pensa e reflete sobre a realidade social, sobre aqueles aspectos da realidade que são criados ou modificados pelo ser humano.
Para todos esses cientistas, o objeto de sua reflexão é, de certa forma, algum aspecto da realidade que lhe é dado pela percepção (observação, experimento). É verdade que em cada uma dessas ciências pensa-se e reflete-se sobre entidades e processos que não são visíveis, enquanto tais. Mesmo nesses casos, postula-se, porém, que essas entidades e esses processos têm conseqüências observáveis.
O psicólogo (a menos que ele seja behaviorista) pensa e reflete sobre a realidade psíquica: processos e eventos mentais, idéias, crenças, sensações, emoções, etc. O objeto sobre o qual o psicólogo não behaviorista pensa e reflete não é visível. Se ele reflete sobre idéias, crenças, sensações, emoções, etc. de terceiros, ele só o faz de modo indireto, baseado principalmente em declarações feitas por essas pessoas. Se ele reflete sobre suas próprias idéias, crenças, sensações, emoções, etc. ele o faz usando um processo de instrospecção, não de observação. Neste caso, não necessita, portanto, nem de observações, nem de declarações. Ele tem um acesso direto e imediato às suas próprias idéias, crenças, sensações, emoções, etc.
O psicólogo behaviorista, tentando fazer da psicologia uma ciência natural, reflete apenas sobre o comportamento, que, naturalmente, é observável, mensurável, etc. -- embora as causas do comportamento, ou, se se prefere, as razões que levam as pessoas a se comportar de uma ou de outra maneira, não sejam necessariamente visíveis e mensuráveis.
O teólogo, de certo modo como o psicólogo, reflete sobre uma realidade que supostamente transcende a dimensão empírica, e à qual, portanto, não se tem acesso direto através da percepção. Teólogos têm discutido muito como é que se tem acesso a essa realidade que supostamente jaz além do mundo empírico. Alguns têm afirmado que é através da realidade empírica que chegamos ao conhecimento da realidade que jaz além dela. Outros têm afirmado que só temos conhecimento dessa realidade trans-empírica quando ela se revela a nós.
E o filósofo, pensa e reflete sobre o quê? Qual o objeto da filosofia?
Paremos por um momento para refletir sobre o que vimos pensando ou refletindo nos parágrafos anteriores. Certamente não vimos refletindo sobre a realidade física, biológica ou social. Também não vimos refletindo sobre as coisas que são objeto de reflexão de psicólogos (behavioristas ou não) e teólogos. Na verdade, o objeto de nossa reflexão, nos parágrafos anteriores, tem sido a reflexão que cientistas e outros intelectuais (como teólogos) fazem. Não estivemos, portando, refletindo sobre a realidade, propriamente dita. Estivemos, isso sim, refletindo sobre como as pessoas refletem sobre a realidade.
O que isso quer dizer é que existe um tipo de reflexão, que poderíamos chamar de primeira ordem, que tem como objeto a realidade, propriamente dita, e que existe um outro tipo de reflexão, que poderíamos chamar de segunda ordem, que tem como objeto a reflexão de primeira ordem. É com esta reflexão de segunda ordem que a filosofia se identifica. Nada nos impede de dizer que a reflexão do filósofo é, portanto, uma metarreflexão.
Como a reflexão se exprime através da linguagem, poderíamos dizer que a filosofia é um metadiscurso (ou um discurso de segunda ordem) sobre os vários discursos de primeira ordem -- discurso científico, discurso ético, discurso estético, discurso religioso, discurso político, discurso jurídico, discurso pedagógico, ou mesmo discurso do senso comum.
Na verdade, nada impede que exista reflexão de terceira, quarta, ou qualquer outra ordem -- embora a questão fique cada vez mais complicada, à medida que se distancia da realidade, propriamente dita. Existe, hoje, sacramentada inclusive com periódicos, associações, etc., uma área de atividade intelectual chamada de metafilosofia -- que nada mais é do que um discurso de terceira ordem sobre a filosofia.
2. O Filosofar Ilustrado
Para muitos a filosofia exerce, no âmbito das ciências humanas e das humanidades, função semelhante à que a matemática exerce no seio das ciências exatas, sendo, como ela, igualmente temida.
Esse receio diante da filosofia é freqüentemente induzido pelos próprios filósofos. Ao ler as obras de alguns deles, fica-se com a nítida impressão de que foram escritas mais para impressionar e intimidar do que para esclarecer e ensinar.
Os escritos de certos filósofos existencialistas, por exemplo, são tão cifrados em linguagem hermética que se tornam literalmente incompreensíveis para quem não fez deles sua especialidade. Cheios de neologismos, com termos velhos em sentidos totalmente novos, repletos de hifens onde nenhum era exigido ou esperado, contendo elaborados discursos sobre o "nada", como se o nada fosse algo extremamente complexo e obscuro, esses escritos dão a impressão de que seus autores desejaram esconder o pensamento atrás da linguagem, ao invés de revelá-lo através dela.
Mas não são apenas os existencialistas que usam técnicas lingüisticas intimidatórias do não-iniciado. Os filósofos analíticos neo-positivistas, que tanto professam aderir à clareza, usam e abusam de notações lógicas, dando a impressão de que textos de filosofia mais se assemelham a tratados de matemática pura do que a algo que uma pessoa leiga inteligente possa ler, entender e apreciar.
Mas a filosofia não foi sempre obscura e formalística. Nem é preciso que o seja, para ser profunda, rigorosa, e útil.
Para constatar que a filosofia nem sempre foi difícil de entender, basta ler os diálogos platônicos protagonizados por Sócrates. Obras primas de clareza, os diálogos socráticos mostram como a filosofia, sem perda de profundidade e de rigor, pode tornar-se compreensível para pessoas comuns inteligentes e interessadas, mesmo que não cultas, no sentido tradicional do termo. Sócrates dialogava até com escravos. Seus diálogos precisam permanecer, quanto ao estilo, como um dos modelos da atividade filósofica.
Outro modelo a ser seguido e imitado, quanto ao estilo filosófico, é David Hume, filósofo escocês do século XVIII. Depois de escrever, em sua juventude, uma obra muito profunda e bastante complexa, que não causou nenhum impacto imediato sobre seus contemporâneos, Hume concluiu que, se é desejável que filosofia influencie os leigos, é para estes que ele deveria escrever. Para alcançar esse objetivo, resolveu mudar de estilo: abandonou a filosofia mais hermética, voltada quase que exclusivamente para outros filósofos, e, sem abrir mão do rigor lógico, adotou um estilo mais leve, literário, irônico, acessível ao leigo cuja atenção desejava obter. Hume soube tornar a leitura da filosofia agradável. É freqüentemente difícil lê-lo sem um leve sorriso, causado pelo humor fino, pelo "wit", pela alfinetada bem dada. O estilo de Hume deve permanecer como outro modelo da atividade filosófica.
Tendo revelado meus modelos estilísticos, não hesito ao afirmar com todas as letras que pretendo fazer com que o leitor, mesmo aquele que mais a receia, venha a gostar da filosofia ao terminar de ler este livro. Não há nenhuma razão porque o útil não possa ser também agradável. É parte dos mitos de nossa cultura que o útil deve ser difícil, tedioso, inacessível. Contudo, a verdade é bem outra. Filosofar é algo importante -- talvez nada exista de mais importante -- e, no entanto, algo extremamente prazeroso e agradável.
A vida não examinada, dizia Sócrates, não é digna de ser vivida. Filosofar é examinar a vida que vivemos, é refletir sobre os porquês de viver dessa e não daquela forma, de fazer isso e não aquilo, de apreciar essa obra de arte e não aquela, de acreditar nesse e não naquele enunciado.
Mas se filosofar é isso, então todos filosofamos, pelo menos de vez em quando.
Quando alguém nos afirma alguma coisa, e queremos saber com base no quê faz aquela afirmação, tentando averiguar se a pessoa realmente tem conhecimento do que diz, ou se o que está dizendo não passa de mera opinião sua, estamos nos envolvendo com a questão dos fundamentos dos enunciados que ouvimos ou fazemos, com o problema da distinção entre conhecimento e mera opinião, entre saber e meramente acreditar. Essa questão e esse problema fazem parte da filosofia desde os seus primórdios. Há mais de um diálogo socrático que discorre sobre esse assunto.
Quando vemos certas obras supostamente de arte e nos perguntamos o que é que há de artístico nelas, estamos dando vazão a um sentimento filosófico -- é verdade, existem sentimentos filosóficos! -- que se revolta contra a tendência de considerar pedaços de ferro aparentemente torcidos a esmo, ou pedaços de jornal cobertos de borrões e mal dispostos numa tela, como arte. Se procurarmos verbalizar e explicitar esse sentimento, estaremos filosofando.
Quando ouvimos certos ruídos no rádio e protestamos, afirmando que aquilo não é música, não importa o que pensem nossos filhos, estamos lidando com questões filosóficas. Música é arte, e nem todo barulho é música, mesmo que gravado em disco e reproduzido através de tecnologia a laser.
Quando, de um lado, lemos relatos de comunidades ou grupos sociais que praticavam rotineiramente o canibalismo, ou o sacrifício humano, ou que deixavam que bebês do sexo feminino morressem à míngua, e, de outro lado, lemos certos filósofos relativistas afirmar que o certo e o errado, do ponto de vista moral, são relativos, e que o que é moralmente errado, de nosso ponto de vista, pode ser moralmente certo em outro contexto, sentimos (a menos que estejamos já contaminados pelo virus relativista) um certo mal-estar filosófico -- que também existe! Esse mal-estar nos leva a indagar se é realmente possível que haja justificativa moral para práticas como essas. Não seriam essas ações moralmente condenáveis em qualquer contexto espaço-temporal, mesmo que as pessoas, a comunidade ou o grupo social que as realizam as considerem moralmente corretas, quiçá obrigatórias? Essas indagações são filosóficas.
Quando, ao bater os olhos no rosto do cônjuge, ou do namorado ou namorada, percebemos que algo não vai bem, e perguntamos qual o problema, estamos fazendo inferências complexas acerca de seu estado de espírito a partir de seu comportamento. A questão da medida em que isso é justificável é uma questão filosófica, que psicólogos behavioristas fariam bem em considerar com mais seriedade.
Quando louvamos ou criticamos as escolas por darem muita ou pouca ênfase à tradição cultural, aos "grandes livros do mundo ocidental", ou por estarem demasiadamente preocupadas com a profissionalização, ou com o vestibular, em detrimento de uma formação mais ampla do aluno, em prejuizo do desenvolvimento do seu pensamento crítico, de sua criatividade, de sua sensibilidade artística, estamos definindo a educação e priorizando objetivos para ela, pelo menos em sua modalidade escolar, e estamos mais uma vez filosofando.
Quando optamos por uma carreira ou uma profissão menos rentável do ponto de vista financeiro, mas que nos traz satisfação pessoal, estamos agindo em função de valores cujo exame é uma das tarefas centrais da filosofia. Estamos, em condições como essa, fazendo uma declaração pública de nossa filosofia, através de nossas ações, de nossas escolhas, de nossas decisões.
Quando escolhemos anestesiar a mente e destruir o corpo com drogas, também estamos fazendo uma declaração pública de nossa filosofia: estamos dizendo que não vale a pena viver, ou pelo menos que não vale a pena viver alerta e conscientemente.
E assim por diante.
Esses exemplos, recolhidos daqui e dali, nos mostram que todos filosofamos, em algum momento ou outro, com maior ou menor rigor, com mais ou menos consciência do fato. A questão não é se vamos filosofar ou não, mas com que grau de consciência e rigor vamos fazê-lo.
Apesar de ilustrarem vários aspectos da atividade filosófica, esses exemplos não fornecem, contudo, uma caracterização completa da filosofia, muito menos a definem. Vou, nas seções seguintes, abordar a questão da definição da filosofia de maneira mais sistemática.
Mas é bom ressaltar, antes disso, que ao leigo pode parecer incrível que filósofos profissionais não tenham conseguido chegar a um acordo a respeito do que seja a filosofia, isto é, acerca de seu próprio objeto de estudo. Esta, porém, é a pura verdade. Isso se dá porque a questão da natureza e da tarefa da filosofia já é, ela própria, um problema filosófico: é impossível definir, de fora da filosofia, sua natureza e sua tarefa. Como toda questão filosófica, a questão relativa ao objeto e ao método da filosofia já comporta uma variedade de respostas. A "primeira aproximação" de uma definição da filosofia que ofereci, na primeira seção deste capítulo, não é universalmente aceita -- muito pelo contrário.
Qualquer iniciante poderá perceber que filósofos, em geral, são bem mais hábeis em fazer perguntas do que competentes para respondê-las com clareza . No entanto, tentam, desesperadamente, lidar com todas as perguntas e indagações, suas ou dos outros, e eventualmente propõem respostas para elas. Por isso, para cada pergunta, ainda que aparentemente, simples, fornecem uma série enorme de respostas, quase sempre incompatíveis. Como qualquer questão filosófica, a pergunta "O que é a filosofia?" tem recebido uma variedade de respostas.
A alguns pode parecer que essa proliferação de respostas seja indicativa do próprio fracasso da filosofia. Outros vêem nessa situação a grande riqueza do pensamento humano, que, para cada problema que lhe é proposto, é capaz de imaginar uma variedade de soluções, todas elas, em maior ou menor grau, dignas de consideração, e muitas delas contribuindo, de uma maneira ou de outra (mesmo que por contraste), para uma compreensão mais ampla e profunda dos problemas com que se depara o ser humano.
Concordo com os que pensam assim. Embora muitos problemas filosóficos milenares não tenham (ainda?) sido solucionados, nossa compreensão deles, hoje, não é idêntica à dos filósofos que os formularam pela primeira vez: é bem mais profunda e ampla, e isso em virtude das várias respostas que já lhes foram sugeridas.
Esse fato indica que há progresso na filosofia, apesar de esse progresso não poder ser medido quantitativamente, em referência ao número de problemas solucionados, sendo somente constatado através de uma visão qualitativa, que leva em conta o aprofundamento e a ampliação de nossa compreensão desses problemas.
Não é, portanto, impróprio oferecer (mais) uma definição da filosofia, se essa sugestão de definição não é feita dogmaticamente, como se fosse a única possível, ou mesmo a única razoável. É forçoso reconhecer que outras definições de filosofia existem que também são plausíveis e razoáveis, e é possível que, ao invés de se contraporem à que vou sugerir, como alternativas, justaponham-se a ela, como maneiras complementares de ver a filosofia.
Mas antes de discutir em mais detalhe minha definição de filosofia, vou examinar outras propostas de definição que não considero muito adequadas.
3. Algumas Tentativas de Definição
A palavra "filosofia" freqüentemente causa um sentimento de apreensão ao leigo. Este geralmente crê que a filosofia lide com aspectos misteriosos da realidade -- aspectos que a ciência não consegue elucidar -- ou que trate de questões altamente abstratas que nada têm que ver com a vida diária. O leigo geralmente pensa que a filosofia lide com idéias que apenas mentes muito brilhantes conseguem entender. Essa apreensão faz com que ele geralmente feche sua mente para a filosofia. A palavra lhe lembra lúgubres edifícios medievais onde pessoas que não tinham algo mais útil para fazer exercitavam seus intelectos -- geralmente em latim, língua ideal para dar brilho ao intelecto.
A. O Entendimento do Senso Comum
Antes de passar a uma análise mais aprofundada de alguns desses problemas, talvez seja oportuno observar que o termo "filosofia" é freqüentemente usado em um sentido não técnico . Dizemos que um certo treinador de futebol tem uma filosofia desse esporte que difere da filosofia de um outro treinador. Em reuniões e seminários às vezes ouvimos falar da filosofia que deve conduzir os trabalhos, e assim por diante. Nesses contextos o termo está sendo empregado de forma não-técnica, significando nada mais do que os princípios básicos que regem uma determinada prática ou atividade. Neste sentido, a filosofia de um treinador de futebol pode ser reforçar o meio do campo, atacar pelas pontas em diagonal ou chegando até à linha de fundo, etc.
Esse entendimento não-técnico da filosofia não nos ajuda muito a entender o que ela é.
B. A Definição Etimológica
A definição etimológica de filosofia também não ajuda muito a remover a apreensão a que fiz referência. Etimologicamente, "filosofia" significa amor à sabedoria. O vocábulo é oriundo de duas palavras gregas, sophia, sabedoria, e philos, uma das palavras gregas para amor (ao lado de eros e agape, por exemplo). "Amor à sabedoria" -- mas o que será, realmente, sabedoria? O termo nos lembra os sábios -- os Reis Magos do Oriente, Confúcio -- ou então está associado, no original em grego, a sofisma, argumento especioso, aparentemente válido, mas na realidade inconclusivo, geralmente não apresentado em boa fé. Essas associações, de um lado, não ajudam esclarecer o que seja a filosofia, e, de outro, parecem confirmar as suspeitas de muitas pessoas de que filósofos nada mais são do que especialistas na arte de manipular termos e enunciados com finalidades talvez não muito claras ou mesmo confessáveis.
Apelar para a etimologia, portanto, embora freqüentemente útil, não nos ajuda, no caso. Uma das razões pelas quais o expediente não nos ajuda aqui é que o significado etimológico do termo "filosofia" é tão obscuro quanto é desconhecido o sentido do termo na língua materna, se não for mais obscuro. Uma outra razão, talvez a principal, é que conceitos e termos têm sua própria história, e nem sempre o significado original de uma palavra tem muita relação com os seus significados atuais. No nosso caso, definir filosofia etimologicamente como "amor à sabedoria", além de parecer indicar que estamos tentanto explicar o obscuro pelo ainda mais obscuro , não leva em conta desenvolvimentos filosóficos mais recentes.
Além disso, a expressão "amor à sabedoria" é por demais ampla e vaga. Ela talvez possa caracterizar também o que seja a ciência (embora de maneira igualmente vaga). Na verdade, nos tempos antigos não havia muita distinção entre filosofia e ciência. Uma definição tão ampla e vaga não corresponde às concepções mais técnicas e precisas da filosofia que são necessárias no mundo atual.
Talvez se disséssemos que filosofia é "amor ao conhecimento" as coisas ficassem um pouco mais fáceis, pois a maior parte das pessoas tem uma certa idéia do que seja conhecimento: todos estamos acostumados a ouvir falar em conhecimento científico, por exemplo. Contudo, assim que começamos a analisá-la, constatamos que a noção de conhecimento também não é muito clara, nem muito precisa. Além disso, falar em "amor conhecimento" parece nos levar mais na direção da ciência do que da filosofia. Afinal de contas, é a ciência, não a filosofia, a responsável pela explosão de conhecimento hoje existente e pelas grandes conquistas tecnológicas da nossa civilização. Ou pelo menos assim parece. Dado o prestígio do conhecimento científico e da tecnologia, em nossos dias, a carga horária de disciplinas científicas e técnicas vem sendo aumentada em nossos currículos -- ao mesmo tempo que deles virtualmente se elimina a filosofia. Assim sendo, nem mesmo a reconceituação da filosofia como "amor ao conhecimento" nos ajuda muito a entender o que ela seja. Tentemos encontrar uma definição mais precisa.
Amor à verdade?
C. Uma Definição Moderna (Richard Rorty )
É interessante notar que algumas definições de filosofia propostas por filósofos parecem corroborar a suspeita de que a filosofia é algo bastante obscuro, abstrato e mesmo indeterminado e confuso, habitando uma terra de ninguém entre os domínios da ciência, das artes e da teologia. Isso é claramente visível em uma definição discutida por Richard Rorty e em uma proposta por Bertrand Russell, que vou analisar nesta e na seguinte sub-seção.
Richard Rorty analisa, em um livro por ele editado, The Linguistic Turn: Recent Essays in Philosophical Method , uma caracterização de filosofia, que, a bem da verdade, ele mesmo considera inadequada . Nessa conceituação, "a filosofia é a disciplina em que se busca conhecimento mas só se obtém opinião". A filosofia, portanto, aspira ao conhecimento, diferentemente da arte, que não busca conhecimento. Diferentemente da ciência, porém, que busca, mas também encontra, o conhecimento, a filosofia busca o conhecimento mas só encontra a opinião.
Essa proposta de definição tem o mérito de distinguir, de alguma forma, a filosofia, de um lado, da ciência e, de outro, da arte -- algo que qualquer definição séria deve fazer. Mas ela já começa estipulando que a filosofia é uma atividade em que não há conhecimento -- algo que parece uma concessão de derrota antes mesmo da batalha .
Além do mais, a definição sugerida não esclarece se a filosofia busca conhecimento com método semelhante ao da ciência. Se o método da filosofia é idêntico ao da ciência, por que é que a filosofia não chega ao conhecimento ao qual aspira? Seria porque a filosofia tem um objeto diferente do da ciência, objeto este que torna o método, neste caso, improdutivo de conhecimento? Se é este o caso, qual seria esse objeto? Se o método da filosofia não é semelhante ao da ciência, qual seria esse método?
Bertrand Russell, ao discutir essa questão, muito antes de Rorty, já abordava essas questões, como veremos a seguir.
D. Outra Definição (Bertrand Russell)
Na Introdução ao seu livro A History of Western Philosophy, Russell propõe a seguinte conceituação de filosofia, na qual esta é contrastada como a ciência, de um lado, e a teologia, de outro:
"A 'filosofia', no meu entender, é algo intermediário entre a teologia e a ciência. Semelhantemente à teologia, a filosofia consiste de especulações sobre assuntos, com respeito aos quais não foi ainda possível obter conhecimento definido. Mas semelhantemente à ciência, a filosofia apela à razão humana, e não a uma autoridade, seja essa a autoridade da tradição ou da revelação. Todo conhecimento definido, é a tese que defendo, pertence à ciência; todo dogma a respeito daquilo que jaz além do conhecimento definido pertence à teologia. Mas entre a teologia e a ciência há uma terra de ninguém que está aberta a ataques de ambos os lados: essa terra de ninguém é a filosofia" .
A primeira impressão que se tem ao ler essa caractrerização da filosofia é que o problema é, na verdade, mais sério do que parecia ser! Russell não nos ajuda muito e parece nada mais dizer do que o que já sabíamos, ou seja, que a filosofia lida com questões vagas e indefinidas, que ela habita uma terra de ninguém (e, portanto, de todo o mundo), afirmando que em relação a essas questões não se deve esperar alcançar "conhecimento definido", que só se encontra na ciência. Russell afirma que a teologia e a filosofia têm o mesmo objeto de estudo, diferindo apenas na maneira de abordá-lo, o método da filosofia tendo maior afinidade com o científico do que com o teológico (supondo que haja um método teológico) .
Embora não concorde com a proposta de definição de Russell, ela é útil como ajuda na clarificação de nossas idéias sobre o que seja a filosofia, pois chama nossa atenção para alguns pontos que precisam ser considerados em qualquer tentativa séria de definir a filosofia.
A. É interessante que Russell afirma que "a 'filosofia', no meu entender, é...". Isso indica que Russell encara sua definição como algo pessoal: essa é a sua maneira de ver a filosofia. Em nenhum lugar no parágrafo ele afirma ou mesmo sugere que a sua seja a única maneira correta de encarar a filosofia, ou mesmo que seja a melhor maneira . Dito em outras palavras, isso parece significar que não se deve ter a pretensão de propor a verdadeira e correta definição de filosofia: quando muito, pode-se aspirar a formular uma maneira de encarar a filosofia, uma proposta de definição, uma definição estipulativa.
B. As observações de Russell sugerem a necessidade de demarcar, tão claramente quanto possível, as linhas divisórias que separam a filosofia de outras atividades intelectuais que, pelo menos tradicionalmente, têm estado bem chegadas a ela, como a teologia e a ciência. A constatação dessa necessidade é importante. A sugestão de Russell, porém, é bastante questionável. Ele sugere que a filosofia se distingue da teologia em relação ao método e da ciência em relação ao objeto de estudo, e que se assemelha àquela no tocante ao objeto de estudo e a esta no tocante ao método. Embora Russell esteja levantando questões interessantes aqui, é necessário que as coisas sejam mais bem esclarecidas. Por exemplo: será que o objeto da filosofia é realmente afim ao da teologia? Creio que não. E o método da filosofia, em que se distingue do método científico ? Além disso, até que ponto o método depende do conteúdo?
C. A razão de Russell para assumir a posição aqui externada está no seguinte comentário que faz à sua proposta de definição:
"Quase todas as questões de maior interesse para mentes especulativas são tais que a ciência não pode respondê-las. Por outro lado, as respostas confiantes do teólogo não são mais tão convincentes como pareciam em séculos anteriores. ... [Segue uma lista de perguntas caracteristicamente filosóficas] ... A essas perguntas nenhuma resposta pode ser encontrada em um laboratório. As teologias têm pretendido dar-lhes respostas, excessivamente precisas. Mas exatamente a precisão dessas respostas as torna suspeitas à mente moderna. O estudo dessas questões, mesmo que não se chegue a uma resposta, é o negócio da filosofia. ... A ciência nos diz o que podemos conhecer, mas o que podemos conhecer é pouco. Se nos esquecermos de quanto não conhecemos, tornar-nos-emos insensíveis a muitas coisas da maior importância. A teologia, por outro lado, induz a crença dogmática de que temos conhecimento quando de fato só temos ignorância, e, ao fazer isso, produz um certo tipo de impertinente insolência para com o universo. Incerteza, na presença de vívidos temores e esperanças, é algo doloroso, mas é tudo que temos, se desejamos viver sem o apoio de contos de fadas confortantes. Não é bom nem esquecer as perguntas que a filosofia faz, nem nos convencer de que encontramos respostas indubitáveis a ela. Ensinar como viver sem certeza, sem, contudo, ser paralizado pela hesitação, talvez seja a principal coisa que a filosofia possa, em nosso tempo, ainda fazer para aqueles que a estudam" .
Essas palavras são belas, e posso endossá-las, até certo ponto. Elas nos explicam porque Russell foi levado a definir a filosofia como o fez. Ele quer que a filosofia procure responder às perguntas às quais a teologia tem tentado dar respostas -- por isso diz que o objeto da filosofia é afim ao da teologia. Mas ele quer que a filosofia faça isso usando métodos semelhantes aos da ciência, e ele está convicto de que esses métodos não vão fornecer respostas indubitáveis.
D. Russell sugere que, no que diz respeito ao método, a filosofia, como a ciência, "apela à razão humana", utiliza o método racional. Os termos "razão", "racional", etc. andam muito desgastados, ultimamente. O que é que caracteriza o apelo à razão, o método racional? Russell não nos esclarece -- pelo menos no contexto da definição de filosofia.
Vamos ter que explorar um pouco mais o assunto.
4. A Filosofia Analítica
Passo agora a elaborar um pouco mais o que entendo por filosofia. Nesta seção apresentarei uma caracterização geral, não muito técnica. Nas seguintes procurarei tornar minha definição mais específica e precisa, mesmo às custas de alguma repetição (que é intencional, pois ajuda na compreensão do conceito).
De maneira geral, a filosofia é a reflexão que o ser humano exerce, através da análise e da crítica, sobre o significado e os fundamentos de conceitos, crenças, convicções e pressuposições básicas, aceitos por ele próprio ou por outros seres humanos.
Essa caracterização geral da filosofia deixa entrever que a atividade filosófica é uma atividade reflexiva de segunda ordem. Com isso quero dizer que a reflexão filosófica pressupõe outros tipos de atividade reflexiva, como a ciência, a ética, a estética, a política, a história, a religião, etc., e mesmo o chamado senso comum.
Passo a dar alguns exemplos.
O objeto de reflexão do cientista natural é, em linhas gerais, a natureza; o do historiador é a história; e assim por diante. Essas atividades de reflexão são de primeira ordem: concentram-se em diferentes aspectos da realidade, ou (como diriam os filósofos clássicos) do "ser". Elas partem, naturalmente, de certas pressuposições (por exemplo, de que os fenômenos do mundo natural estão causalmente relacionados, de que é possível ter conhecimento de eventos que não são mais objetos de nossa possível percepção, como é o caso de eventos históricos, etc.), e resultam em certas crenças e convicções (como, por exemplo, uma teoria acerca da natureza da matéria, ou uma hipótese a respeito das causas de um certo conjunto de eventos históricos, como a Revolução Francesa ou Guerra Civil Americana).
O filósofo, enquanto tal, não reflete sobre as mesmas coisas que são objeto de reflexão por parte do cientista natural e do historiador -- se o fizesse, estaria deixando de ser filósofo e passando a ser cientista natural ou historiador (algo, por sinal, perfeitamente possível e até bastante comum). Ele reflete sobre as reflexões do cientista natural e do historiador, buscando trazer à tona (se necessário for), elucidar, e criticamente examinar os conceitos e as pressuposições básicas destes, procurando entender seus modos de argumentação e inferência, etc.
Em poucas palavras, a filosofia é reflexão sobre a reflexão, é o pensamento pensando sobre si próprio. Para dar um tom mais contemporâneo a esta caracterização, poderíamos dizer que, dado que a reflexão e o pensamento se expressam através da linguagem, através do discurso humano, em suas várias manifestações, a filosofia é discurso sobre o discurso: o filósofo reflete, não sobre a natureza ou a história (para continuar com nossos exemplos anteriores), mas sim sobre o que os cientistas naturais ou historiadores dizem acerca da natureza e da história .
Por isso é que chamamos a atividade filosófica de uma reflexão de segunda ordem: ela se exerce sobre outras reflexões, que constituem, portanto, o objeto da filosofia.
É desnecessário enfatizar que o próprio cientista natural, ou o historiador, pode refletir sobre aquilo que está dizendo acerca da natureza, ou da história. Quando assim reflete, porém, está realizando reflexão de segunda ordem -- está, portanto, nessas ocasiões, filosofando, e não fazendo ciência, ou história.
É desnecessário, também, frisar que a filosofia não se preocupa somente com o discurso científico e histórico, como poderiam sugerir nossos exemplos. O filósofo reflete sobre qualquer tipo de reflexão de primeira ordem: reflexão moral, reflexão estética, reflexão política, reflexão religiosa, etc., e também sobre as reflexões do senso comum . Por isso, há muitas "filosofias de ...": filosofia da ciência (que pode ser ainda mais especializada, havendo a filosofia das ciências naturais, das ciências biológicas, das ciências humanas), filosofia da história, filosofia da religião, filosofia da arte, filosofia do direito, e assim por diante. Inclui-se aí, naturalmente, também a filosofia da educação.
É necessário, porém, demarcar a reflexão filosófica de outras reflexões que são feitas sobre a ciência, a história, a religião, etc. O sociólogo, ou o psicólogo, pode refletir, por exemplo, sobre a atividade do cientista e sobre ela fazer e responder perguntas que sejam estritamente sociológicas, ou psicológicas, e não filosóficas. A sociologia da ciência não faz as mesmas perguntas sobre a atividade do cientista que são feitas pela filosofia da ciência. Tampouco a psicologia da ciência.
Se, porém, há outros tipos de reflexão, além da filosófica, que se exercem sobre as várias atividades intelectuais, o que é que caracteriza as perguntas distintamente filosóficas? A resposta de certa forma já esta contida no que foi dito: a filosofia busca elucidar e examinar criticamente conceitos, pressuposições básicas, modos de argumentação e inferência, etc. existentes dentro de uma dada área de atividade intelectual.
Um psicólogo, por exemplo, pode fazer vários tipos de perguntas acerca da atividade científica: Como é que, do ponto de vista psicológico, alguém chega a descobrir ou formular uma lei ou uma teoria? Quais os mecanismos psicológicos que estão envolvidos na criatividade e inventividade científicas? É a criatividade científica diferente, do ponto de vista psicológico, da criatividade artística? De mesma maneira um sociólogo pode indagar acerca da medida em que teorias científicas são condicionadas pelo meio ambiente em que aparecem, a respeito do papel da ciência e do cientista na sociedade, etc.
As perguntas que o filósofo que reflete sobre a ciência faz, porém, são do seguinte tipo: O que se entende por ciência? Quais são os critérios de cientificidade? O que diferencia teorias científicas de outros tipos de teoria (digamos, teorias metafísicas e especulativas)? O que leva cientistas a considerar uma teoria melhor do que a outra, quando ambas se propõem a explicar os mesmos fenômenos? Qual a relação entre teoria e observação? Existe verdade na ciência ou apenas probabilidade? O que é um fato? O alvo da ciência é produzir teorias altamente prováveis ou, ao contrário, teorias pouco prováveis, mas de alto poder explicativo e preditivo? Existe objetividade e racionalidade na ciência? Se não, por quê? Se sim, em que sentido e em que medida? E assim por diante.
Pode-se ver, imediatamente, que virtualmente todas essas perguntas filosóficas poderiam ser resumidas na seguinte questão: em que sentido e em que medida se pode falar em conhecimento científico? Essas perguntas são todas epistêmicas (episteme é o termo grego que se traduz por "conhecimento"): buscam analisar e elucidar a noção de conhecimento científico e os conceitos e premissas que constituem os fundamentos desse conhecimento.
Perguntas semelhantes podem ser feitas em relação a qualquer atividade intelectual. É isso que faz com que a epistemologia, a teoria do conhecimento, ou seja, aquela área da filosofia que investiga a natureza, o escopo (ou a abrangência) e os limites do conhecimento humano, em geral, seja de suma importância no estudo da filosofia.
5. O Objeto e o Método da Filosofia Analítica
A esse tipo de caracterização da filosofia que acabo de fornecer tem sido dado o rótulo de "Filosofia Analítica". Mas a Filosofia Analítica é bem mais complexa do que pode deixar transparecer essa breve análise. Por isso, procurarei elucidar um pouco mais, e de forma um pouco mais técnica e cuidadosa, nesta seção e nas seguintes, o que entendo por Filosofia Analítica.
O que se chama hoje de Analítica Filosofia é um movimento histórico que tem pelo menos duas vertentes. De um lado, o chamado Positivismo Lógico (ou Neo-Positivismo). De outro, a chamada Filosofia Lingüística (que não deve ser confundido com Filosofia da Linguagem ou Filosofia da Lingüística).
Tanto o Positivismo Lógico como a Filosofia Lingüística têm antecendentes importantes. O primeiro foi antecedido pelo Atomismo Lógico de Bertrand Russell e pela filosofia do jovem Ludwig Wittgenstein, representada pelo Tractatus Logico-Philosophicus. A Filosofia Lingüística tem como seu antecedente mais importante G. E. Moore, com sua ênfase na análise do senso comum e da linguagem do dia a dia. Às vezes esses antecedentes do Positivismo Lógico e da Filosofia Lingüística são incluídos como parte integrante da Filosofia Analítica, sendo caracterizados como a fase da "Análise Clássica".
Os principais representantes do Positivismo Lógico se situaram, inicialmente, no continente europeu, fazendo parte do chamado Círculo de Viena. Com a guerra, visto que muitos eram judeus, mudaram-se para os Estados Unidos ou para a Inglaterra. Os nomes mais expressivos do grupo são Moritz Schlick, Rudolf Carnap, Hans Reichenbach. No início, Karl Popper teve alguma ligação com o Círculo de Viena, mas posteriormente dele se afastou. Na Inglaterra, o principal representante do Positivismo Lógico foi Alfred Jules Ayer.
A Filosofia Lingüística nasceu como um fenômeno tipicamente inglês, mas logo se espalhou pelo mundo inteiro. Seus principais representantes são Ludwig Wittgenstein, em sua obra mais madura, e J. L. Austin. O primeiro liderou a chamada corrente cambridgeana, o segundo a corrente oxfordiana da Filosofia Analítica.
Alguns analistas (principalmente brasileiros) incluem Karl Popper como uma terceira vertente da Filosofia Analítica, ou então simplesmente o rotulam de positivista lógico ou de filósofo lingüístico. A inclusão é injustificada e não leva em conta o fato de que Popper deliberadamente se separou tanto dos positivistas lógicos como dos filósofos lingüísticos, insistentemente criticando-os. Popper também recusou toda e qualquer tentativa de considerá-lo como uma terceira vertente da Filosofia Analítica. Contudo, o argumento mais importante contra sua inclusão na Filosofia Analítica está no conteúdo de suas posições, que só um leitor desatento ou superficial identificaria com as principais teses da Filosofia Analítica.
Isto posto, é importante observar que a Filosofia Analítica, incluindo os antecendentes mencionados, e abrangendo tanto o Positivismo Lógico como a Filosofia Lingüística, não é o que se poderia chamar de uma "escola filosófica". Ela é muito mais um "movimento", cujos participantes exibem certas características que lhe dão, por assim dizer, o ar de pertencerem à mesma família, mas que não defendem, necessariamente, um conjunto de teses filosóficas comuns a todos -- a não ser uma idéia geral sobre o objeto da filosofia e uma forma de ver o seu método.
No que segue apresentarei minha versão da Filosofia Analítica. Provavelmente, nenhum dos filósofos considerados como pertencentes ao movimento aceitaria essa minha formulação, tal e qual, embora muitos pudessem endossar as teses a seguir expostas, com algumas modificações ou qualificações.
Voltando à noção de "semelhanças de família", os dois principais traços que os filósofos analíticos exibem são as seguintes:
· O objeto da filosofia é a linguagem
· O método da filosofia é a análise lógica
A. O Objeto da Filosofia
Quase todos os filósofos analíticos concordariam com a afirmação de que o objeto da filosofia é a linguagem, o discurso que se faz sobre a realidade, não a realidade não-lingüística.
Entretanto, uns -- os Positivistas Lógicos -- afirmariam que o objeto da filosofia não é a linguagem, tout court, mas apenas a linguagem da ciência; outros -- os Filósofos Lingüísticos -- não incluiriam essa limitação, e afirmariam que a filosofia deve se preocupar com a linguagem de qualquer disciplina ou atividade intelectual, como, por exemplo, com a linguagem da religião, da política, da arte, e mesmo do sentido comum quotidiano.
Todos eles, porém, possivelmente concordariam que filosofia, discorrendo não sobre a realidade não-lingüística, mas sobre o discurso que se faz sobre a realidade, não pode se situar no mesmo nível lógico do discurso que pretende analisar, mas deve dele se distanciar, situando-se em um nível lógico superior. A filosofia, portanto, se caracteriza, para esses filósofos, como uma atividade lingüística de segunda ordem. É isso que a distingue da ciência e (para os filósofos lingüísticos) das outras disciplinas que ela estuda.
As ciências naturais estudam a natureza, que é uma realidade não-lingüística. O discurso que as ciências naturais fazem sobre a natureza é um discurso de primeira ordem, pois seu objeto é a natureza, não um outro discurso. A teologia também estuda -- ou pelo menos assim parece -- uma realidade não-lingüística (digamos Deus, a relação do mundo e do homem com Deus, a realidade supra-sensível, etc., em suma, aqueles fenômenos tidos como constituintes da religião). O discurso teológico, nessa ótica, também seria um discurso de primeira ordem.
A filosofia, não discorrendo sobre a natureza ou sobre Deus e o mundo supra-sensível, mas, sim, sobre o discurso que a ciência e a teologia fazem acerca dessas realidades, coloca-se em um nível de discurso logicamente superior .
O problema surge quando a filosofia pretende discorrer sobre atividades que investigam uma realidade que já é, pelo menos em parte, lingüística. O objeto das ciências humanas, não importa como seja definido em detalhe, inclui manifestações lingüísticas de vários tipos. Seria o discurso das ciências humanas um discurso de segunda ordem, por ter como objeto realidades lingüísticas? Ou então tomemos a própria ciência da lingüística. Seu objeto indubitavelmente é a linguagem. Será o discurso da lingüística um discurso de segunda ordem? E se o for, a análise filosófica do discurso da lingüística seria de terceira ordem?
B. O Método da Filosofia
É aqui que a discussão do objeto da filosofia leva à discussão de seu método. Na forma em que os filósofos analíticos vêem a questão, a lingüística estuda a linguagem como se esta fosse um fato natural. Sabemos que a linguagem é um fato cultural, não natural. Mas o discurso que a lingüística faz sobre seu objeto o toma como dado, como se fosse natural, não se caracterizando, dessa ótica, como um discurso de ordem lógica superior. A filosofia, porém, estuda a linguagem não como se esta fosse um fato natural, que é dado, mas do ponto de vista de sua estrutura lógica.
Para ilustrar, tomemos como exemplo uma questão muito discutida por Bertrand Russell . A afirmação "O atual rei da França é careca" seria, do ponto de vista do lingüista -- pelo menos do lingüista não muito chegado a questões filosóficas -- uma afirmação totalmente regular e trivial. A oração é correta, do ponto de vista sintático, a grafia das palavras não contém desvios da norma aceita, e, portanto, o enunciado não apresenta maior interesse. Para o filósofo, porém, esse é um enunciado altamente problemático. Comecemos por perguntar se o enunciado, dada a melhor evidência hoje disponível, é verdadeiro ou falso. Verdadeiro não pode ser, porque a França atualmente não tem rei. Se dissermos, porém, que o enunciado é falso, poderia parecer que estamos afirmando (ou pelo menos pressupondo) que a França tem atualmente um rei, mas que ele não é careca (i.e., que ele tem cabelo). Ora, isso também não é verdade. Logo, o enunciado não parece ser nem verdadeiro nem falso. Mas segundo um princípio básico da lógica, o princípio do terceiro excluído, um enunciado ou é verdadeiro ou é falso -- tertium non datur.
Como sair do impasse? Só através de um análise lógica (e não meramente lingüística) do enunciado. Uma análise lógica do enunciado demonstraria que ele, apesar de parecer ser um enunciado simples, é, na realidade, um enunciado composto, constituído por dois enunciados distintos: o primeiro é um enunciado existencial, que afirma que a França atualmente tem um rei; o segundo é um enunciado condicional, que afirma que, se alguém é atualmente rei da França, esse alguém é careca. Feita essa análise, verifica-se que o primeiro enunciado é falso e que o segundo é verdadeiro (pelas regras do cálculo proposicional ou sentencial, segundo as quais um enunciado condicional só é falso se seu antecedente for verdadeiro e o conseqüente falso, o que não é o caso aqui).
Isso posto, temos uma primeira aproximação do que seja a filosofia, do ponto de vista da Filosofia Analítica: a filosofia é a análise lógica da linguagem, ou, se se preferir, do discurso.
O Positivismo Lógico, por aceitar também certas teses metafísicas (como, por exemplo, de que só existe significação cognitiva -- isto é, verdade e conhecimento -- no discurso científico) conclui que a tarefa da filosofia se esgota na análise lógica da linguagem da ciência, do discurso científico. Tudo o mais não passa de poesia (num sentido deliberadamente pejorativo) -- algo que pode ser bonito, mas que é cognitivamente sem sentido, isto é, não pode ser nem verdadeiro nem falso.
A Filosofia Lingüística, pretendendo livrar-se das teses metafísicas do Positivismo Lógico, e, assim, tornar-se menos rígida e mais tolerante, admite que é tarefa legítima da filosofia fazer a análise lógica de várias outras linguagens, como por exemplo, da linguagem da religião, da política, da arte, da moralidade, etc. -- ou seja, da linguagem de qualquer outra disciplina ou atividade intelectual. Podemos até dizer que ela absorveu o Positivismo Lógico como um de seus casos particulares, despindo-o de suas pretenções exclusivistas e metafísicas e deixando-lhe a tarefa de analisar do discurso científico (pelo menos no caso das ciências naturais).
6. A Ferramenta Lógica e seus Pressupostos
Embora o termo "lógica" possa ser usado em outros sentidos, quando o utilizamos, no contexto da Filosofia Analítica, ele se refere exclusivamente à relação de enunciados uns com os outros. Não faz nenhum sentido, nesse contexto, falar em "lógica dos fatos". A lógica se ocupa apenas de enunciados e suas relações, não dos fatos.
De igual maneira, quando se fala, nesse mesmo contexto, de contradição, é a contradição entre enunciados que se refere, não fazendo sentido falar em contradição na realidade ou nos fatos. O pressuposto básico aqui é que dois enunciados podem se contradizer, mas não dois fatos. Se dois fatos acontecem, ou aconteceram, eles não envolvem uma contradição, nem sequer a nível dos enunciadcos que eventualmente os descrevam.
É aqui que entra a noção de verdade.
A verdade, em um sentido puramente lógico, é a outra face da contradição. Um enunciado da forma "a e não-a", ou "a é não-a", é uma contradição, e, portanto, necessariamente falso. Se eu afirmo, por exemplo, "A bola é de couro e a bola não é de couro", ou "Um homem solteiro é um homem não-solteiro", eu afirmo algo que é necessariamente falso. Não é preciso fazer nenhuma investigação empírica da realidade para determinar que esses enunciados são falsos: sua própria forma determina isso. Por outro lado, um enunciado da forma "a e a", ou "a é a", é uma tautologia, e, portanto, necessariamente verdadeiro. Se afirmo "A bola de couro é a bola de couro'", ou "Um homem solteiro é um homem solteiro" (ou, quem sabe, "um homem solteiro é um homem não-casado" ), eu afirmo algo que é necessariamente verdadeiro. Não é preciso fazer nenhuma investigação empírica da realidade para determinar que esses enunciados são verdadeiros: sua própria forma determina isso.
Em um sentido semântico, ou extra-lógico, porém, falamos em verdade quando há alguma forma de correspondência entre um enunciado e o(s) fato(s) que ele descreve. Aqui saímos do nível puramente lógico da relação de um enunciado com outro(s) para investigar a "relação" entre um enunciado e a realidade não-lingüística, entre um enunciado e os fatos. Nesse sentido extra-lógico, o enunciado "a bola é de couro" é verdadeiro se, e somente se, a bola for realmente de couro, isto é, se for um fato que a bola (a que se refere o enunciado) é de couro. Normalmente é esse o sentido que temos em mente quando falamos em verdade.
Note-se que em nenhum dos dois sentidos do termo "verdade" é admissível falar em "verdade dos fatos", a não ser em um sentido derivado e quase metafórico. Fatos são estados de coisas que existem. Há estados de coisas que não existem, exceto como objeto de nossa imaginação: são estados de coisas fictícios, não fatos fictícios. De fatos, não faz sentido dizer que sejam verdadeiros, muito menos que sejam falsos. Não faz sentido falar em fato verdadeiro -- a expressão, se usarmos "verdadeiro" em um sentido derivado, como sinônimo de "real", seria um pleonasmo injustificado -- nem muito menos em fato falso -- a expressão, se usarmos "falso" em um sentido derivado, como sinônimo de "irreal", seria paradoxal, contraditória mesmo. Verdadeiro ou falso é o enunciado que pretende descrever um estado de coisas. O enunciado é verdadeiro se o estado de coisas descrito existe, isto é, se o estado de coisas é um fato, e falso se o estado de coisas descrito não existe, isto é, se o estado de coisas não é um fato, mas é apenas, digamos, imaginado.
O exemplo do penúltimo parágrafo levanta uma outra questão que é preciso esclarecer. Em relação ao enunciado "a bola é de couro", dissemos que, se a bola a que ele se refere for, digamos, de borracha, ou de pano, o enunciado é falso. Se, porém, a bola a que se refere o enunciado for realmente de couro, o enunciado é verdadeiro. Isso parece indicar que o enunciado "a bola é de couro" pode ser falso em alguns contextos -- quando se referir a bolas de borracha ou de pano, por exemplo -- e verdadeiro em outros -- quando se referir a bolas realmente de couro.
Dessa constatação alguns podem ser tentados a concluir que um enunciado pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo, ou que a verdade é relativa, ou alguma coisa do gênero. Essa conclusão não se justifica.
Quando usamos um enunciado como "A bola é de couro" o fazemos de forma elíptica, omitindo uma série de especificações que são indispensáveis para a determinação de sua verdade ou falsidade mas que são perfeitamente dispensáveis no contexto, porque facilmente subentendidas pelos ouvintes ou leitores do enunciado. Assim, quando eu estou segurando uma bola nas mãos, e não há outra bola na proximidade, e afirmo "A bola é de couro", esse enunciado na verdade é uma elipse do enunciado "A bola [que eu, Eduardo Chaves, estou, no momento, 10:44 h do dia 12/2/91, segurando em minhas mãos] é de couro". O enunciado, assim qualificado, é verdadeiro ou falso, nunca as duas coisas, e é verdadeiro ou falso de forma absoluta e não relativa. Se a bola for realmente de couro, o enunciado (adequadamente caracterizado) é verdadeiro, de forma absoluta, e o será per secula seculorum. Se a bola não for de couro, será falso -- também de forma absoluta e para sempre.
A mesma questão pode ser ilustrada com outro enunciado: "Hoje está chovendo". Algumas pessoas, com inclinações sofísticas, poderiam ser tentadas a afirmar que esse enunciado é verdadeiro e falso, ou que sua verdade é relativa. Diriam que se "hoje" se refere a 14/10/90, e o local é Gramado, RS, o enunciado é verdadeiro, mas que se hoje se refere a 12/2/91, e o local é Campinas, SP, o enunciado é falso. A mesma coisa que disse no parágrafo anterior deve ser repetida aqui. "Hoje está chovendo" é uma forma elíptica, de conveniência. O enunciado completo seria algo como "Hoje, 12/2/91, no campus da UNICAMP em Campinas, ao meio dia, está chovendo". Nesta forma, o enunciado é ou verdadeiro ou falso, nunca os dois. E sua verdade ou falsidade não é relativa a nenhum contexto: só depende de estar ou não chovendo no campus da UNICAMP em Campinas, ao meio dia de 12/2/91. Na realidade, o enunciado é falso porque estou escrevendo isso ao meio dia de 12/2/91 no campus da UNICAMP e olhando pela janela constato que não está chovendo -- pelo contrário há um lindo sol lá fora.
7. Tipos de Enunciados
Enunciados podem ser classificados de várias maneiras. Eles podem ser singulares ou gerais, empíricos ou não-empíricos, descritivos ou prescritivos, etc. Esses vários tipos não são mutuamente exclusivos. É possível que um enunciado seja geral, empírico e descritivo. Hipóteses científicas geralmente têm essas características.
É oportuno observar que, quando falo em enunciado , refiro-me a algo que pode ser verdadeiro ou falso. Todos os tipos de enunciados que acabo de mencionar podem ser verdadeiros ou falsos. Uma ordem ou um pedido não podem ser verdadeiros ou falsos.
A. Enunciados Singulares e Gerais
Até aqui limitei-me a usar enunciados relativamente simples e a falar de coisas singulares, não de classes de coisas: uma bola, um dia de chuva.
Se eu fizer a afirmação "existe uma bola de couro de tigre de Bengala", que é uma afirmação singular, existencial, basta que se encontre uma bola de couro de tigre de Bengala em algum lugar do mundo para que a verdade de minha afirmação seja comprovada, ou para que minha afirmação seja verificada. Falsificar essa afirmação, porém, é muito difícil. Se procurarmos a tal bola pelo mundo inteiro e não a encontrarmos, não é tão simples dizer que falsificamos a afirmação: eu posso sempre alegar que não procuramos direito, e que em algum lugar, ainda não examinado, existe uma bola de couro de tigre de Bengala.
Esse exemplo serve de advertência para o seguinte: quando fazemos afirmações singulares, especialmente existenciais, é relativamente fácil comprovar a veracidade da afirmação e muito difícil comprovar sua falsidade.
Se eu, porém, disser "todas as bolas são redondas", estou fazendo uma afirmação não sobre uma coisa singular, mas sobre toda uma classe de coisas. Minha afirmação, neste caso, será falsificada se encontrarmos uma bola que não seja redonda -- e basta uma para que seja comprovada a falsidade da afirmação. (A afirmação "todas as bolas são redondas" pode ser considerada, por alguns, como verdade lógica, ou tautologia, porque o Aurélio define "bola" como "qualquer corpo esférico" e define "redondo" como algo "que tem a forma perfeita, ou quase perfeita, de uma esfera". Estou usando o termo "bola", porém, em um sentido que abrange as bolas de futebol americano ou de rugby, que não têm a forma perfeita de uma esfera).
Concedendo que basta uma bola que não seja redonda para falsificar a afirmação de que todas as bolas são redondas, podemos agora perguntar quantas bolas teremos que examinar para poder concluir, com total justificação, que todas as bolas são redondas? Todas, não é verdade? Nada menos do que todas -- e todas é muito, porque "todas" inclui bolas de outros países, bolas que já deixaram de existir, bolas que vão ainda ser fabricadas ou tipos de bola que vão ainda ser inventadas, etc..
Esse exemplo serve de advertência para o seguinte: quando fazemos afirmações gerais, é relativamente fácil comprovar a falsidade da afirmação e muito difícil comprovar sua veracidade.
As chamadas teorias e leis científicas são constituídas de enunciados gerais. Por isso, embora seja, em princípio, relativamente fácil refutá-las, é muito complicado confirmar sua veracidade.
B. Enunciados Empíricos e Não-empíricos
Até aqui também tenho utilizado enunciados descritivos de estados de coisas facilmente observáveis: ser um bola de couro ou não, estar ou não chovendo.
Mas suponhamos que eu comece a fazer afirmações sobre coisas e seres que supostamente não são observáveis, como intenções, motivos ou razões de um comportamento, sensações de angústia, a alma, Deus. No tocante a enunciados sobre essas coisas e seres, é difícil imaginar como é que eles podem ser verificados ou falsificados. Como é que esses enunciados se situam em relação a enunciados acerca de prótons e nêutrons -- que também são, admitidamente, de verificação e falsificação complicada? A filosofia da psicologia e da religião (ou, melhor dizendo, da teologia) deve esclarecer essas questões.
C. Enunciados Descritivos e Prescritivos
Mas até aqui tenho utilizado enunciados descritivos -- de estados de coisas observáveis ou não.
Suponhamos, porém, que eu diga: "Você não deve castigar seu filho" (enunciado singular, negativo), ou "Ninguém deve julgar os outros" (enunciado geral, negativo), ou "Todos devem ajudar os necessitados" (enunciado geral, positivo).
O que esses enunciados têm em comum é o fato de que não descrevem nenhum estado de coisas: eles prescrevem um determinado comportamento. Se nada descrevem, parece difícil determinar se esses enunciados "correspondem com a realidade", e, portanto, se são verdadeiros.
Mas se parece difícil determinar se enunciados prescritivos são verdadeiros ou falsos, então a ética e a teoria política estão em posição complicada, visto que (salvo melhor juizo) esses enunciados parecem desempenhar um papel importante nelas.
D. Enunciados que Envolvem Termos Valorativos
Há uma outra categoria de enunciados que se parecem, em um aspecto, com enunciados descritivos, e, em outro, com enunciados prescritivos. É a categoria de enunciados que envolvem termos valorativos: "bom", "mau", "certo", "errado", "belo", "feio", "lindo", "horrível", etc..
Os enunciados que contêm esses termos parecem descritivos. Quando afirmo: "Esse quadro de Picasso é lindo", parece que estou descrevendo uma característica do quadro, sua grande beleza. No entanto, é difícil especificar no que consiste a característica beleza que eu encontro no quadro. Por isso, alguns têm sugerido que o enunciado não é descritivo de alguma característica do quadro mas sim de um sentimento de aprovação em mim, em relação ao quadro. O que o enunciado descreve, afirmam, não é uma característica objetiva do quadro, mas um sentimento subjetivo em mim. Como, porém, "de gustibus et coloribus non est disputandum", outros podem não ter esse sentimento diante do mesmo quadro. Outros filósofos têm sugerido que o enunciado não descreve nada, nem no quadro nem em mim, mas somente exprime minha aprovação do quadro, sendo equivalente a uma interjeição. Ainda outros têm afirmado que o enunciado, embora descritivo na forma, é prescritivo no conteúdo, sendo equivalente a algo como "Todos devem [no sentido de "têm o dever de"] admirar esse quadro". E assim por diante.
O que se disse em relação a enunciados estéticos muitos têm também dito em relação a julgamentos morais. Tomemos como exemplo o enunciado: "Discriminar [para não dizer "assassinar"] pessoas com base em sua raça é moralmente errado". Estou descrevendo alguma coisa ao afirmar isso? Se estou, a descrição é de alguma característica objetiva da ação de discriminar alguém com base em sua raça ou de algum sentimento em mim? Ou será que não estou descrevendo nada, mas apenas exprimindo minha emoção negativa diante da ação de discriminar pessoas com base em sua raça, ou diante daqueles que assim discriminam? Ou será que estou prescrevendo alguma coisa (por exemplo, que ninguém deve discriminar pessoas com base em sua raça)?
Essas questões são essenciais para uma análise correta do discurso moral e do discurso estético. É função da filosofia esclarecê-las, segundo os filósofos analíticos.
8. Tipos de Filosofia Analítica
A. A Epistemologia é Una
Existe uma corrente, dentro da Filosofia Lingüística, que defende a tese de que há algo em comum em todos os problemas a que se fez rápida alusão na seção anterior. Segundo essa corrente, todos os problemas mencionados, no âmbito da filosofia da ciência, da filosofia da psicologia, da teologia, da arte, da moralidade, são, no fundo, problemas que giram em torno da seguinte questão: até que ponto é justificável falar em conhecimento e verdade na ciência, na psicologia, na teologia, na estética, na moralidade? Se é justificável, esses termos mantêm um mesmo sentido em todas essas disciplinas, ou será que conhecimento científico é diferente de conhecimento moral, será que a verdade científica é diferente da verdade religiosa? Na Idade Média havia os que defendiam a teoria da Verdade Dupla. Segundo essa teoria, algo pode ser verdade na ciência e não ser verdade na teologia, e vice-versa. Faz isso sentido? É uma tese como essa defensável?
Mais importante, aqui, do que tentar responder a essas perguntas é reconhecer que todas as questões levantadas são questões relacionadas ao conhecimento e à verdade: são questões que poderíamos chamar de epistêmicas. É por isso que a corrente que mencionamos defende a tese de que os problemas de que a filosofia se ocupa são sempre epistêmicos, e que os problemas epistemológicos são fundamentalmente os mesmos, não importando o contexto disciplinar em que sejam levantados. Ser filósofo, segundo essa corrente, é ser fundamentalmente, epistemólogo, especialista na lógica dos conceitos epistêmicos.
B. As Epistemologias são Várias
Uma outra corrente nega, porém, que uma epistemologia comum subjaza a todas as disciplinas. Com base nas idéias expostas por Wittgenstein em sua obra mais recente, essa corrente defende a tese de que cada disciplina ou atividade intelectual é, como se fosse, um "jogo de linguagem". Cada jogo tem suas próprias regras -- mas não existe nenhuma regra comum a todos os jogos. Tudo o que pode existir são certas relações de semelhança familiar entre um jogo e outro. Damas e xadrez, por exemplo, usam o mesmo tabuleiro, mas não possuem as mesmas regras. É possível afirmar, por isso, que são mais semelhantes entre si do que com o jogo de bridge, que usa cartas e não tabuleiro.
Não existe, portanto, segundo essa corrente, uma epistemologia. Se quizermos chamar de epistemologia o estudo das regras de um determinado jogo, podemos afirmar que há várias epistemologias, que nada têm em comum umas com as outras. O filósofo não é, fundamentalmente, epistemólogo: ele é, isto sim, especialista nas regras de um jogo específico.
Segundo essa corrente, não é legítimo nem, na verdade, possível, criticar um jogo a partir dos pressupostos e das regras do outro. Da mesma forma que não posso criticar o jogo de damas porque não segue as regras do xadrez, não posso criticar a religião por não seguir as regras da ciência. Cada jogo e cada disciplina têm suas regras próprias e só podem ser criticados de dentro, por assim dizer.
9. A Natureza e a Tarefa da Filosofia Analítica da Educação
À luz do que foi dito, em que consiste a filosofia da educação, a partir da visão da filosofia analítica?
A filosofia da educação, seguindo a caracterização apresentada nos parágrafos anteriores, não discorre sobre o fenômeno da educação, como tal, mas sim sobre o que tem dito acerca desse fenômeno (por exemplo, por sociólogos da educação, psicólogos da educação, ou por qualquer pessoa que reflita sobre a educação). Não resta a menor dúvida que umas das primeiras e mais importantes tarefas da filosofia da educação, a partir da caracterização da tarefa da filosofia sugerida acima, é a análise e clarificação do conceito de "educação". Fala-se muito em educação. "Educação é direito de todos", "educação é investimento", "a educação é o caminho do desenvolvimento", etc. Mas o que realmente será esta educação, em que tanto se fala? Será que todos os que falam sobre a educação usam o termo no mesmo sentido, com idêntico significado? Dificilmente. É a educação transmição de conhecimentos? É a educação preparação para a cidadania democrática responsável? É a educação o desenvolvimento das potencialidades do indivíduo? É a educação adestramento para o exercício de uma profissão? As várias respostas, em sua maioria conflitantes, dadas a essas perguntas são indicativas da adoção de conceitos de educação diferentes, muitas vezes incompátiveis, por parte dos que se preucupam em responder a elas. Este fato, por si só, já aponta para a necessidade de uma reflexão sistemática e profunda o que seja a educação, isto é, sobre o conceito de educação.
Assim que se começa a fazer isso, porém, percebe-se que a tarefa de clarificação e elucidação do conceito de educação é extremamente complexo e difícil. Ela envolve não só o esclarecimento das relações existentes ou não entre educação e conhecimento, educação e democracia, educação e as chamadas potencialidades do indivíduo, educação e profissionalização, etc. Envolve, também, o esclarecimento das relações que porventura possam existir entre o processo educacional e outros processos que, à primeira vista, parecem ser seus parentes chegados: doutrinação, socialização, aculturação, treinamento, condicionamento, etc. Uma análise que tenha por objetivo o esclarecimento do sentido dessas noções, dos critérios de sua aplicação, das suas implicações, e da sua relação entre si e com outros conceitos educacionáis é tarefa da filosofia da educação e é tcondição necessária para a elucidação do conceito de educação .
Mas há ainda uma outra família de conceitos que se relaciona estreitamente com a educaçâo: a dos conceitos de ensino e aprendizagem. Qual a relaçâo existente entre educaçâo e ensino, entre educaçâo e aprendizagem, e entre ensino e aprendizagem? Façamos uma lista de possíveis perguntas a serem feitas acerca do relacionamento dessas noções:
-- Pode haver educação sem que haja ensino?
-- Pode haver educação sem que haja aprendizagem?
-- Pode haver ensino sem que haja educação?
-- Pode haver aprendizagem sem que haja educação?
-- Pode haver aprendizagem sem que haja ensino?
-- Pode haver ensino sem que haja aprendizagem?
Tem se criticado muito uma visão da educação que coloca muita ênfase no ensino (e, consequentemente, no professor). O importante, afirma-se, não é o ensino, e sim a aprendizagem. Os mais exagerados chegam quase a afirmar: " Morte ao ensino! Viva a aprendizagem! " Outros fazem uso de certos "slogans" meio obscuros: "Toda aprendizagem é auto-aprendizagem". Incidentalmente, faz-se muito uso, em livros e discursos sobre a educação, de "slogans" cujo sentido nem sempre é muito claro. Um outro "slogan" muito usado, nesse contexto, é o seguinte: "Não há ensino sem aprendizagem". Parece claro que, para poder julgar quanto à verdade ou à falsidade dessas informações, é indispensável que os conceitos de ensino e aprendizagem tenham sentidos claros e específicos -- o que, infelizmente, não acontece com muita frequência. É necessário, portanto, que o sentido desses conceitos seja esclarecido e que sua relação com o conceito de educação seja elucidada, e a filosofia da educação pode ser de grande valia nessa tarefa.
Para terminar essa primeira parte, que tem por finalidade caracterizar a filosofia da educação, dentro da perspectiva mais geral de uma visão da filosofia que foi explicitada nos primeiros parágrafos, deve-se fazer menção de um outro conjunto de problemas relacionando, de alguma forma, com os já mencionados, mas que, por razão de espaço, não será explicitamente discutido: a questão da relação entre educação e valores. Este problema tem vários aspectos. Um deles é o seguinte: É tarefa da educação transmitir valores? Muitos já observaram que, seja ou não tarefa da educação transmitir valores, ela de fato os transmite, pelo menos de maneira implícita. Outros afirmam que, embora seja tarefa da educação transmitir valores, a educação moral, como as vezes é chamada a transmissão de valores através da educação, não é tarefa da educação escolar, isto é, da educação que se realiza no âmbito de uma instituição chamada escola, e sim da educação que tem lugar no contexto da família, ou talvez, se for o caso da igreja. Esta resposta levanta, em um contexto específico, o problema mais amplo da relação entre educação e escola. Para muitos, quando alguém está falando em educação está, automaticamente, falando em escolas, e vice-versa. Mas a educação certamente parece ser algo que transcede os limites da escola, e hoje em dia fala-se muito em "educação sem escolas". Os proponentes do ponto de vista que mencionamos acima acreditam que pelo menos uma parte da educação, aquela que diz respeito à transmissão de valores, deve ser levada a efeito fora da escola. Todos esses problemas são complexos, e embora a filosofia da educação não tenha respostas prontas para eles, ela pode contribuir muito para sua solução satisfatória, ajudando na elucidação e clarificação dos principais conceitos envolvidos nesse conjunto de problemas.
Antes de passarmos para a segunda parte deste trabalho, duas pequenas observações.
A primeira é um lembrete de que os problemas aqui mencionados como sendo do âmbito da filosofia da educação de maneira alguma esgotam as questões a que um filósofo da educação, como tal pode se dirigir, mesmo que ele seja partidário da conceituação de filosofia e filosofia da educação aqui proposta. Há uma série de outros problemas, a que não se fez referência, que estão, legitimamente, dentro da província da filosofia da educação como aqui conceituada. No que foi esboçado acima e no que será discutido abaixo temos apenas uma amostra de como alguns conceitos educacionais podem ser analisados filosoficamente.
Em segundo lugar, não se pode esquecer que a caracterização da filosofia da educação aqui apresentada é uma caracterização possível, que é sugerida a partir de uma conceituação da filosofia, em geral, a qual não é, de maneira alguma, a única possível. Muitos filósofos discordam da orientação sugerida aqui e apresentam, consequentemente, uma visão diferente da natureza e tarefa da filosofia da educação. Em muitos dos casos a visão por eles sugerida apenas complementa (e não substitui) a apresentada no presente trabalho. Em outros casos é bem possível que as concepções sejam mutuamente exclusivas. Nos últimos parágrafos faremos menção do nosso ponto de vista acerca da relação entre a filosofia da educação e a teoria da educação, segundo o qual muita coisa que foi e é apresentada como filosofia da educação deve ser colocada no âmbito da teoria da educação. Contudo, é apenas no contexto de discussões acadêmicas acerca do conceito de filosofia da educação que faz alguma diferença designar posições acerca da educação como pertencentes à teoria, e não à filosofia da educação.
Embora a lógica talvez pudesse recomendar que começássemos com o conceito de educação, quer nos parecer que, do ponto de vista didático, seja mais recomendável que a discussão desses conceitos educacionais básicos seja iniciada pelos conceitos de ensino e aprendizagem, pois o leitor, provavelmente, estará mais familiarizado com eles do que com o mais difuso e abstrato conceito de educação.
III. Linguagem, Lógica e Epistemologia
"Nenhum educador pode tratar a lógica e a linguagem por cima e ainda afirmar que está preocupado com a verdade" .
1. Linguagem
"... O aluno [precisa] entender conceitos, proposições e argumentos como ferramentas para a apreensão da realidade, vindo, assim, a compreendê-los, de forma muito mais vital e funcional, através dos usos que possuem no pensamento e na comunicação. A estrutura da linguagem seria então compreendida não como convenção arbitrária, mas, sim, como uma maneira de refletir a natureza da realidade como ela realmente é" .
A. Palavras e Conceitos
Mais cedo ou mais tarde nossa atenção é levada a focalizar o problema de definições. Geralmente falamos em definir um termo, ou uma palavra. Na verdade, definimos conceitos, que são entidades lógicas, que, por sua vez, são representados por entidades lingüísticas, ou palavras.
O conceito de cadeira é representado pela palavra "cadeira", em português, e pela palavra "chair", em inglês. Temos, neste caso, um conceito e duas palavras.
Pode ser que um mesmo conceito seja representado por mais de uma palavra de uma mesma língua, quando as palavras são sinônimos exatos. Às vezes é possível ou mesmo necessário usar mais de uma palavra, ou seja, toda uma expressão, para exprimir um conceito. A palavra "homem" e a expressão "ser humano adulto do sexo masculino" provavelmente exprimem o mesmo conceito. Às vezes uma palavra é inventada para se referir a um conceito que se torna popular, como é o caso da palavra "balzaquiana", que exprime o conceito de mulher de 30 anos, ou de um pouco mais de 30 anos. Por outro lado, não temos uma palavra para representar o conceito de mulher de mais de quarenta e cinco anos, descasada, com filhos já criados, e envolvida, agora, principalmente com sua vida profissional. É necessário usar toda uma expressão para se referir a esse conceito. Nada impede, porém, de que, por economia ou por alguma outra razão, inventemos uma palavra para se referir a esse conceito.
Outras vezes, uma só palavra exprime mais de um conceito. A palavra "raça", por exemplo, pode exprimir tanto o conceito de um grupo com características étnicas semelhantes (quando se refere à raça negra, por exemplo) como o conceito de coragem ou de brio (como quando se diz que um time tem raça). A palavra "homem" é freqüentemente utilizada (malgrado protestos de feministas) para exprimir os conceitos de espécie humana, ser humano do sexo masculino e ser humano adulto do sexo masculino.
O conceito, é bom que se esclareça, não define a palavra. A palavra, em si, não é definida. Ela se refere ao conceito. O conceito, sim, se refere a objetos físicos e é definido. A definição de um conceito exprime as características essenciais de uma classe de coisas, características estas que distinguem essas coisas de outras e as identificam. (Na realidade, apenas palavras que são nomes próprios se referem a objetos e não a conceitos ).
B. Sentenças e Proposições
Sentenças são formadas por palavras e são entidades lingüísticas. Proposições são formadas por conceitos e são entidades lógicas. Uma proposição tem com a(s) sentença(s) que a exprime(m) relação semelhante à que prevalece entre um conceito e a(s) palavra(s) que o representa(m).
Há vários tipos de sentenças. Quando se estuda gramática, geralmente se afirma que sentenças exprimem orações, e que há orações de diferentes tipos. Embora a questão dos vários tipos de oração não se identifique, necessariamente, com a questão dos usos da linguagem, elas são muito semelhantes. No processo da discussão dos usos da linguagem será esclarecido o conceito de proposições, que é essencial para a lógica.
C. As Funções da Linguagem
Vejamos, agora, alguns dos principais usos da linguagem.
a. Função Descritiva ou Informativa
Para muitos, esse é a função principal da linguagem: descrever a realidade, ou os fatos, para explicar as coisas, ou os acontecimentos, para comunicar algo a outras pessoas. Para isso as pessoas fazem declarações, isto é, afirmam ou negam.
É irrelevante, do ponto de vista do uso da linguagem, se aquilo que é descrito ou declarado é verdadeiro ou falso, se se afirma ou se nega alguma coisa, se aquilo que é objeto da comunicação é realmente informação, ou, ao contrário, desinformação. Em todos esses casos, a função e o uso da linguagem é o mesmo.
Exemplos:
"Júlio César foi imperador Romano"
"Buenos Aires é a capital do Brasil"
"Ele não veio trabalhar porque estava doente"
"O preço dos combustíveis subiu novamente ontem"
b. Função Expressiva ou Evocativa
Muitas vezes usamos a linguagem para expressar ou para evocar algum sentimento, não para declarar alguma coisa.
A linguagem tem função expressiva quando, individualmente, exprimimos nosso sentimento para nós mesmos, como, por exemplo, para desabafar.
Quando tropeçamos num taco que está solto e dizemos um palavrão, não estamos querendo declarar a filiação do taco: queremos, isto sim, expressar nossa dor ou irritação.
A linguagem tem função expressiva/evocativa quando se busca não tanto expressar um sentimento (embora isso possa ocorrer) mas principalmente evocar um sentimento em outras pessoas.
Quando o "comprador de fazendas", no conto de Monteiro Lobato, tenta conquistar a mocinha ingênua do interior observando quão bom é olhar as estrelas do céu quando se está perto de uma da terra, ele não está literalmente declarando que a moça é uma estrela. Ele não está nem mesmo, talvez, expressando seus sentimentos: está, muito mais provavelmente, tentando evocar sentimentos na donzela.
A linguagem poética é, em regra, expressiva, e, portanto, não deve ser tomada como declarativa, isto é, como exprimindo proposições. Quando o poeta chama a vida de "um manso lago azul" ele quer expressar determinados sentimentos e, talvez, evocar em nós sentimentos semelhantes. Ele não está dizendo que, literalmente, a vida é um lago, manso e azul.
Num caso como esse, não exprimimos uma proposição, que pode ser verdadeira ou falsa, mas expressamos um sentimento. Sentimentos não são coisas que podem ser verdadeiras ou falsas: podem ser autênticos ou fingidos, profundos ou superficiais, mas não verdadeiros ou falsos (exceto em um sentido derivado e figurado).
c. Função Diretiva ou Prescritiva
A linguagem tem, ainda, uma função diretiva quando é utilizada para dar ordens, fazer pedidos ou perguntas, ou, de alguma forma, dirigir o comportamento de alguém. Quando a mãe manda o menino lavar as mãos antes de sentar à mesa para jantar, ela não está, em regra, declarando nada que possa ser considerado verdadeiro ou falso, nem está, necessariamente, expressando seus sentimentos. Está dando uma ordem.
Da mesma forma com pedidos, que são formas atenuadas de ordem. Dá ordens quem tem o direito de fazê-lo. Pede quem não tem ou não quer usar o direito de dar ordens. "Por favor, traga-me um copo de água" é geralmente um pedido, não uma ordem. Mas o uso da linguagem continua a ser diretivo.
Quando fazemos uma pergunta, esperamos que nos respondam, e, por isso, usamos a linguagem de forma diretiva. "Que horas são?" não exprime uma proposição, não é algo que possa ser considerado verdadeiro ou falso.
Às vezes fazemos pedidos através de perguntas: "Será que você poderia me trazer um copo de água?" parece uma pergunta, mas, na verdade, é um pedido. Às vezes fazemos o que parece ser uma declaração, mas a intenção é dirigir o comportamento dos outros, e, portanto, a linguagem está sendo usada de maneira diretiva. Isso acontece quando dizemos coisas como "Você não imagina o quanto me entristece ver você usando esse tipo de linguagem". Se algo assim é dito, e a pessoa a quem se dirigiu a expressão responde, dizendo: "Falso, eu imagino sim", cria-se uma situação até hilariante, porque a expressão original não foi usada como uma sentença declarativa que exprime uma proposição, e, sim, como um diretivo, na esperança de que a outra pessoa parasse de se comportar daquela forma.
Quando a linguagem é usada diretivamente seu objetivo é dirigir o comportamento de outra pessoa, produzir ou evitar uma ação, enfim, obter determinado resultado. Um diretivo de ação -- uma ordem, um pedido -- não é algo que pode ser verdadeiro ou falso. Pode, isto sim, fazer ou não fazer sentido, ser formulado com gentileza ou não, ou coisas assim.
As funções anteriores da linguagem são, de certa forma, fáceis de entender:
-- na função descritiva ou informativa a linguagem é usada para descrever algum estado de coisas ou informar alguma coisa. Aquilo que se exprime, quando a linguagem é usada descritiva ou informativamente, é algo que pode ser verdadeiro ou falso.
-- na função expressiva ou evocativa a linguagem é usada para exprimir ou evocar um sentimento.
Em sua função diretiva ou prescritiva, a linguagem é, por vezes, mais complexa.
Não há dúvida de que, em muitos, talvez na maioria absoluta dos casos, a linguagem diretiva ou prescritiva é facilmente identificável. Quando digo a alguém "Você devia descansar um pouco mais", ou "Você não devia beber tanto", estou tentando dirigir seu comportamento.
Também não há dúvida de que, em casos como os dois mencionados no parágrafo anterior, posso também estar expressando meu sentimento de desaprovação frente ao estilo de vida da outra pessoa.
Contudo, feitas essas ressalvas, é preciso chamar a atenção para casos especiais. Imaginemos o seguinte enunciado: "Não devemos fazer aos outros o que não queremos que eles nos façam". Dificilmente esse enunciado poderia ser considerado apenas como um diretivo de comportamento ou como uma expressão de sentimento. Num caso como esse, parece que o enunciado exprime algo que pode ser verdadeiro ou falso, a saber, um fato moral (e não natural).
Mas existem fatos morais? Existe verdade ou falsidade na área da moralidade? Eu penso que sim, mas muitos discordam. Os que discordam hesitam em aceitar que um enunciado como esse seja descritivo ou informativo, que ele exprima algo que pode ser verdadeiro ou falso. Preferem identificá-lo como um uso diretivo, ou mesmo expressivo, da linguagem. Seu sentido, nesse caso, seria o de exortar as pessoas a não fazerem aos outros aquilo que não querem que os outros lhes façam, ou, então, de expressar, ou de evocar nas pessoas, sentimentos de desaprovação diante de comportamentos desse tipo.
Por fim, é preciso ressaltar que algumas pessoas muitas vezes usam linguagem aparentemente descritiva ou informativa para prescrever. Muito do que se diz, no indicativo, em sentenças aparentemente descritivas, acerca da educação (ou da ciência, ou de vários outros assuntos), não passa de prescrições disfarçadas. As pessoas que usam esse estratagema não estão afirmando que a educação realmente é aquilo que dizem: estão, isto sim, exprimindo seu ponto de vista de que é isso que a educação deve ser, ou deve tornar-se. Não adianta, portanto, retorquir a elas dizendo que a educação, na realidade, não é o que afirmam. Elas vão dizer que sabem disso, e que o que estão querendo dizer é que a educação que existe na realidade está longe de ser a verdadeira educação, que elas estão defendendo, e que estão, isto sim, propondo (ou prescrevendo) como a educação deve ser. Procedimentos como esse geram muita confusão.
d. Função Ritual ou Executiva
Em determinados contextos, a linguagem pode ser usada para realizar ou executar alguma coisa, não necessariamente (ou, pelo menos, não primariamente) para descrever algo, expressar ou evocar um sentimento, ou dirigir a ação.
Quando, sem querer, esbarro em alguém na rua, e digo "Desculpe-me", o ato de dizer essas palavras é idêntico ao ato de pedir desculpas. Dizer essas palavras é, portanto, realizar um pedido de desculpas.
Da mesma forma, quando uma pessoa promete algo a outra, dizendo "Eu lhe prometo não mais fazer isso", o ato de dizer essas palavras é idêntico ao ato de prometer. Dizer essas palavras é, portanto, prometer não mais fazer seja lá o que for que a pessoa prometeu não fazer mais.
De igual maneira, quando alguém acusa outra pessoa, dizendo "eu o acuso de ter roubado meu carro", o dizer essas palavras é equivalente ao ato de acusar.
Quando o pastor ou o padre diz "Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", o dizer essas palavras é batizar.
Quando, em um tribunal, uma testemunha jura dizer a verdade, apenas a verdade, e toda a verdade (ou algo assim), o ato de responder com um "Sim" (ou com "I do"!) à pergunta do oficial é equivalente ao ato de jurar.
Quando um juiz de paz diz algo como: "Assim, pela autoridade a mim conferida pelas leis do país, eu os declaro marido e mulher", ele não está descrevendo algo, nem expressando ou evocando sentimentos, muito menos dirigindo a conduta. Está, isto sim, realizando ou executando o ato de casar duas pessoas.
Obviamente, nos três últimos casos, é preciso, para que o uso da linguagem seja ritual ou executivo, que quem diz as palavras ou expressões esteja credenciado para dizê-las e as diga no contexto correto -- e não, por exemplo, quando está contando um caso ou representando uma peça.
D. Função e Forma
A linguagem exerce sua função descritiva ou informativa e sua função ritual ou executiva geralmente através de sentenças declarativas, sua função expressiva ou evocativa geralmente através de sentenças exclamativas, sua função diretiva ou prescritiva através de sentenças imperativas ou interrogativas. Por isso, muitos têm sugerido que há, pelo menos até certo ponto, uma correspondência entre função e forma.
Contudo, essa correspondência é mais aparente do que real.
Sentenças declarativas podem ser usadas para descrever fatos e transmitir informações, bem como para realizar ou executar determinadas coisas, como se viu, mas podem também ser usadas para expressar ou evocar sentimentos. A sentença declarativa
"Este filme é horrível"
pode estar expressando -- ou tentando evocar, dependendo das circunstâncias -- um sentimento, e não descrevendo algo.
A sentença declarativa
"Eu quero um hambúrguer e uma Coca-Cola"
pode estar sendo usada para dirigir ou prescrever conduta, se usada em uma casa de lanches.
Por outro lado, uma sentença interrogativa pode ser usada para dirigir a conduta ("Que horas são, por favor?") como pode ser usada, ao mesmo tempo, para dirigir conduta e para expressar sentimentos ("Até quando você vai ficar me amolando com essa história?").
A forma gramatical de uma sentença pode servir como um indício de sua função, mas é preciso tomar cuidado.
E. Proposições
Uma proposição é o conteúdo de uma sentença declarativa quando esta está desempenhando função descritiva ou informativa. O conteúdo dessas sentenças, ou aquilo que elas exprimem ou declaram, é chamado de proposição. Por isso é que se disse, atrás, que a linguagem, quando usada para descrever ou para informar, exprime algo que pode ser verdadeiro ou falso. Esse "algo" é uma proposição.
Literalmente falando, a sentença é uma entidade lingüística, e a proposição é uma entidade lógica. É a proposição que pode ser verdadeira ou falsa. A sentença pode ser em português ou inglês, bem ou mal construída, ter tantas letras. A proposição não: sua característica básica é ser verdadeira ou falsa.
Várias sentenças declarativas podem exprimir a mesma proposição. "João ama Maria" e "Maria ama João" são sentenças diferentes, uma na voz ativa, outra na passiva, mas que exprimem a mesma proposição, a proposição de que João ama Maria. "Está chovendo" e "It is raining" são sentenças diferentes, uma em português e a outra em inglês. Ambas exprimem, porém, a mesma proposição, a proposição de que está chovendo.
Por outro lado, a mesma sentença pode exprimir proposições diferentes. "Está chovendo" é uma sentença que, usada hoje, exprime uma proposição (que pode ser verdadeira); usada amanhã, exprime outra proposição (que pode ser falsa). "Eu te amo" é outra sentença que pode exprimir milhares de proposições, dependendo de quem a usa. Cada pessoa que usa essa sentença, cada vez que a usa, exprime uma proposição diferente (que pode ser verdadeira ou falsa, dependendo do caso). Uma pessoa pode usar a sentença "Eu te amo" para exprimir uma proposição verdadeira e, horas depois, usá-la para exprimir uma outra proposição falsa, se se dirigir a pessoas diferentes ou (difícil, mas não impossível) se mudar seus sentimentos entrementes.
A lógica lida com argumentos, que são constituídos por proposições. Logo, no que tange à linguagem, é pela sentenças declarativas que a lógica se interessa.
F. Argumentos
Um argumento é um conjunto de proposições -- mas não um conjunto qualquer de proposições. Num argumento as proposições têm que ter uma certa relação entre si e é necessário que uma delas seja apresentada como tese, ou conclusão, e as demais como justificativa da tese, ou premissas para a conclusão. Normalmente argumentos são utilizados para provar ou desprovar alguma proposição ou para convencer alguém da verdade ou da falsidade de uma proposição.
Assim sendo, o seguinte conjunto de proposições não é, na realidade, um argumento:
Todos os metais se dilatam com o calor
Todas os meses há pelo menos quatro domingos
Logo, a UNICAMP é uma boa universidade.
Neste caso, embora todas as proposições sejam (pelo menos à primeira vista) verdadeiras, e embora elas se disponham numa forma geralmente associada com a de um argumento (premissa 1, premissa 2, e conclusão, precedida por "logo"), não temos um argumento porque as proposições não têm a menor relação entre si. Não devemos sequer afirmar que temos um argumento inválido aqui, porque mesmo num argumento inválido as premissas e a conclusão precisam ter uma certa relação entre si.
Por outro lado, o seguinte conjunto de proposições é um argumento:
Todos os homens são mortais
Sócrates é homem
Logo, Sócrates é mortal.
Neste caso, temos não só um argumento como um argumento válido. Nele, todas as premissas são verdadeiras e a conclusão também -- ou, pelo menos, parecem sê-lo, à primeira vista.
E, com argumentos, chegamos à lógica.
2. Lógica
"A lógica, como a anatomia, sempre exercerá atração sobre muitas mentes simplesmente porque, em um universo onde tanta coisa é incerta, ela produz certeza de que algumas formas de raciocínio são tão inadmissíveis quanto alguns usos do corpo" .
A. O Uso da Lógica
Muitas pessoas têm receio da lógica, da mesma forma que têm medo da matemática. A lógica não tem uma boa reputação, exceto, talvez, entre filósofos (mesmo assim apenas entre alguns), e, certamente, entre lógicos profissionais.
Contudo, todos nós usamos a lógica. O tempo todo. Usamos a lógica quando argumentamos, e argumentamos quando tentamos convencer os outros de algo ou quando tentamos nos defender de alguma acusação que nos é feita. Por isso, argumentos são coisa que aparece principalmente na vida sentimental.
[Argumento A1]
1. "Você não me ama", diz ela.
2. "Por quê?", pergunta ele, surpreso.
3. "Porque, se você me amasse, você não teria me deixado aqui sozinha ontem à noite", explica ela.
Situação comum, essa ou alguma parecida. O argumento usado é, no tocante à sua forma, tão comum, que ela certamente ficaria surpreendida se ele -- um filósofo de boa estirpe -- lhe disse, para encerrar a discussão: -- "Ah, não me venha com um 'modus tollens' desses!"
Argumentos como o apresentado por ela são tão comuns que "modus tollens" é o nome latino dado a argumentos que têm essa forma:
[Forma do Argumento Válido Modus Tollens - Negação do Conseqüente]
Se p, então q (premissa maior)
não-q (premissa menor)
Logo, não-p (conclusão)
Colocando "recheio" na forma do argumento, temos:
[Argumento A2]
4. Se você me amasse (p), você não teria me deixado aqui sozinha ontem à noite (q)
5. Você me deixou aqui sozinha ontem à noite (não-q)
6. Logo, você não me ama (não-p).
Esse argumento, e todos os que possuem a mesma forma, é um argumento válido. O raciocínio dela é correto. Resta saber se as premissas que ela usa, especialmente a maior (a primeira), são verdadeiras. Se forem, a conclusão é, necessariamente, verdadeira. Se não forem, ou se pelo menos uma delas não for, a conclusão não precisa ser verdadeira, mesmo que o argumento seja válido, como este.
Mas imaginemos uma outra situação. Ela está feliz -- e o diálogo é diferente.
[Argumento B1]
7. "Ah, que bom que você me ama", diz ela.
8. "Por que você está dizendo isso?", pergunta ele, interessado.
9. "Porque eu lhe disse ontem que, se você me amasse, você não iria àquela festa, e você não foi", explica ela.
Ele -- o mesmo filósofo de boa estirpe -- fica quieto. Por que estragar o bom humor dela apontando uma falácia em seu raciocínio?
Neste segundo caso, o argumento, parecido com o primeiro, é inválido. O argumento, reconstruído, é o seguinte:
[Argumento B2]
10. Se você me ama (p), você não vai à festa (q)
11. Você não foi à festa (q)
12. Logo, você me ama (p).
A forma desse argumento é a seguinte:
[Forma da Argumento Inválido (Falácia) de Afirmação do Conseqüente]
Se p, então q (premissa maior)
q (premissa menor)
Logo, p (conclusão)
Todos os argumentos que têm essa forma são inválidos. Mesmo que as premissas sejam verdadeiras, a conclusão pode ser falsa. Vejamos rapidamente porquê, usando um argumento semelhante em que as premissas são claramente verdadeiras e a conclusão não é necessariamente verdadeira. "Quem ama, não trai", diz o slogan. Construamos um argumento.
[Argumento B3]
13. Se você me ama (p), você não me trai (q)
14. Você não me trai (q)
15. Logo, você me ama (p).
Este argumento, que tem a mesma forma do anterior, não convence muita gente. As duas premissas podem ser claramente verdadeiras, e, contudo, a conclusão ser falsa. Você pode aceitar a premissa que "quem ama, não trai" ("Se você me ama, você não me trai"), e admitir que você não traiu, sem aceitar a conclusão. Isso porque, por exemplo, você pode não ter traído porque não acredita que deva trair ninguém, nem mesmo as pessoas que você detesta. Ou porque você, mesmo não amando, não tem coragem suficiente para trair, ou a oportunidade de trair.
Para que o argumento anterior se torne válido, é necessário que a premissa maior seja alterada de "Quem ama, não trai" para "Quem não trai, ama" -- premissa altamente questionável, para dizer o mínimo. Contudo, mesmo com uma premissa altamente duvidosa, este argumento é formalmente válido, porque, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão, agora, tem que ser verdadeira:
[Argumento C]
16. Se você não me trai (p), você me ama (q)
17. Você não me trai (p)
18. Logo, você me ama (q).
Este argumento, válido, tem a seguinte forma, chamada em latim de "modus ponens":
[Forma do Argumento Válido Modus Ponens - Afirmação do Antecendente]
Se p, então q (premissa maior)
p (premissa menor)
Logo, q (conclusão)
Consideremos, agora, este argumento:
[Argumento D]
19. Se você me trai (p), então você não me ama (q)
20. Você não me trai (não-p)
21. Logo, você me ama (não-q)
Este argumento, invalidérrimo, provavelmente não convence ninguém. Sua forma é a seguinte:
[Forma da Argumento Inválido (Falácia) de Negação do Antecedente]
Se p, então q (premissa maior)
não-p (premissa menor)
Logo, não-q (conclusão)
Por fim, considere estes dois argumentos:
[Argumento E1]
22. Ou você faz o que eu quero (p), ou você não me ama (q)
23. Você não faz o que eu quero (não-p)
24. Logo, você não me ama (q)
[Argumento F1]
25. Ou você faz o que eu quero (p), ou você não me ama (q)
26. Você faz o que eu quero (p)
27. Logo, você me ama (não-q)
O primeiro desses argumentos é válido, o segundo inválido. A forma deles é, respectivamente:
[Forma do Argumento Disjuntivo - Válido: Negação de um Disjunto]
Ou p, ou q (premissa maior)
Não-p (premissa menor)
Logo, q (conclusão)
[Forma de um Argumento Inválido (Falácia) Parecido com o Disjuntivo: Afirmação de um Disjunto]
Ou p, ou q (premissa maior)
p (premissa menor)
Logo, não-q (conclusão)
O primeiro desses dois argumentos é válido, o segundo inválido.
É fácil ver porquê.
[Argumento E2]
22. Ou este ar condicionado está quebrado (p), ou está fazendo muito calor lá fora (q)
23. Este ar condicionado não está quebrado (não-p)
24. Logo, está fazendo muito calor lá fora(q)
Neste caso, se as duas premissas são verdadeiras, não há como a conclusão possa ser falsa.
[Argumento F2]
25. Ou este ar condicionado está quebrado (p), ou está fazendo muito calor lá fora (q)
26. Este ar condicionado está quebrado (p)
27. Logo, não está fazendo muito calor lá fora (não-q)
Neste caso, mesmo que as duas premissas sejam verdadeiras, a conclusão pode ser falsa. A premissa maior pode ser verdadeira, o ar condicionado pode estar quebrado, e pode estar fazendo muito calor lá fora.
Bastam esses exemplos para mostrar que todos argumentam, ou que todos têm que lidar com argumentos quase o tempo todo. Se lidam com argumentos, lidam com a lógica, quer queiram, quer não. É melhor que o façam de maneira consciente e com conhecimento de causa. Caso contrário, podem usar, ou (o que pode ser pior) ser persuadidos a aceitar, argumentos inválidos, vendendo, ou comprando, gato por lebre.
B. A Definição de Lógica
Apesar de usarmos a lógica para tentar convencer e persuadir os outros, a definição de lógica não faz referência a isso.
A lógica é o estudo de princípios e métodos que permitem distinguir os argumentos válidos dos inválidos .
Não é correto dizer que a lógica é a ciência que estuda as leis do pensamento ou as formas de raciocínio. A lógica não se interessa com a questão de como as pessoas pensam ou raciocinam. Esta é uma questão que pode interessar à "psicológica", não a lógica. Pode ser que as pessoas pensem e raciocinem através de processos os mais variados. A lógica não está interessada no processo, e sim no produto: nos argumentos. Na verdade, ela se interessa pelos princípios que permitem distinguir argumentos válidos dos inválidos.
Argumentos são constituídos por proposições, e, por isso, a lógica se interessa por proposições, enquanto componentes básicos de argumentos. Em regra, a lógica não se interessa pela verdade ou falsidade das proposições que compõem um argumento: interessa-se, sim, pelas relações que as proposições têm umas com as outras, especialmente se o conjunto de proposições que formam as premissas de um argumento implicam (termo técnico, que será discutido adiante) a proposição que é sua conclusão.
C. Verdades e Falsidades Contingentes
Aqui é preciso distinguir dois tipos de verdade e falsidade: verdade e falsidade contingente e verdade e falsidade necessária. Vejamos cada um desses tipos de verdade e falsidade por seu turno.
Uma proposição é contingentemente verdadeira quando é verdadeira, mas poderia ser falsa. Uma proposição é contingentemente falsa quando é falsa, mas poderia ser verdadeira.
"Este livro foi impresso no Brasil" exprime uma proposição verdadeira, mas não há nenhuma necessidade nessa verdade: o livro poderia muito bem ter sido impresso em Portugal, ou em algum outro país, e, neste caso, a proposição seria falsa, sem contradição alguma. Por isso se diz que essa proposição é contingentemente verdadeira.
"O Maluf ganhou a eleição para governador de São Paulo em 1990" exprime uma proposição falsa, mas não há nenhuma necessidade nessa falsidade: ele poderia muito bem ter ganho a eleição, e, neste caso, a proposição seria verdadeira, sem contradição alguma. Por isso se diz que essa proposição é contingentemente falsa.
D. Verdades e Falsidades Necessárias
Há algumas proposições, porém, que são verdadeiras ou falsas apenas em função de sua própria forma, ou, então, apenas em função do significado dos termos nelas utilizados. Diz-se, dessas proposições, que são necessariamente, ou logicamente, verdadeiras ou falsas. As proposições necessariamente verdadeiras são também chamadas de tautologias, e as proposições necessariamente falsas de contradições.
Há proposições que são verdades ou falsidades lógicas apenas em função de sua forma ou da sintaxe das sentenças que as exprimem.
"Ou Brasília é a capital do Brasil ou Brasília não é a capital do Brasil" exprime uma verdade necessária, ou uma tautologia .
"Brasília é a capital do Brasil e Brasília não é a capital do Brasil" exprime uma falsidade necessária, ou uma contradição.
Nestes casos, apenas a forma das proposições, ou a sintaxe das sentenças que as exprimem, já indica a verdade ou falsidade das proposições. É irrelevante que termos, ou qual o seu significado (exceto no caso dos termos lógicos, como "ou", "não", etc.)
Por outro lado, há proposições que são verdades ou falsidades lógicas não em função de sua forma, ou da sintaxe das sentenças que as exprimem), mas em função do significado dos conceitos nelas utilizados.
"Se ela é irmã dele, então ela não é homem"
"Alguns triângulos são quadrados"
Nestes casos, apenas a forma das proposições, ou a sintaxe das sentenças que as exprimem, não indica a verdade ou falsidade das proposições.
A forma da primeira proposição é:
Se p, então q
A forma da segunda proposição é:
Alguns x são y
É perfeitamente possível que proposições que tenham essas formas sejam tanto verdadeiras como falsas. Para que saibamos se são verdadeiras ou falsas, é necessário explicitar o significado dos conceitos usados nessas proposições.
Sabemos o conceito de irmã envolve referência ao fato de que a pessoa é do sexo feminino. Logo, a proposição "Se ela é irmã dele, então ela não é homem" é uma proposição necessariamente verdadeira, ou uma tautologia, mas não em função da forma da proposição, e, sim, em função do significado dos conceitos utilizados.
Sabemos o conceito de triângulo envolve referência ao fato de que a figura plana tem três lados, e, portanto, não pode ser quadrada. Logo, a proposição "Alguns triângulos são quadrados" é uma proposição necessariamente falsa, ou uma contradição, mas não em função da forma da proposição, e, sim, em função do significado dos conceitos utilizados.
Quando se afirmou, atrás, que "em regra, a lógica não se interessa pela verdade ou falsidade das proposições que compõem um argumento", previu-se a exceção. A exceção está no fato de que a lógica se interessa por verdades e falsidades necessárias, por tautologias e contradições. Na realidade, os conceitos, de um lado, de verdade necessária, ou tautologia, e, de outro lado, de falsidade necessária, ou contradição, são fundamentais para a lógica, como se verá.
E. Relações entre Proposições
É importante entender a diferença entre proposições contraditórias e contraditórias, principalmente quando as proposições usam conceitos como "todos", "nenhum", e "alguns".
a. Proposições Contraditórias
Uma proposição é contraditória a uma outra quando esta nega o que aquela afirma, ou vice-versa. A proposição p contradiz a proposição não-p, e vice-versa. Assim sendo, a proposição de que João é advogado é contraditada pela proposição de que João não é advogado (e não pela proposição de que João é médico, por exemplo).
Proposições contraditórias não podem ser ambas verdadeiras nem podem ser ambas falsas. Uma delas sendo verdadeira, a outra tem que, necessariamente, ser falsa, e uma delas sendo falsa, a outra tem que, necessariamente, ser verdadeira.
No que caso de uma proposição que tem a forma "Todo x é y", sua contraditória é uma proposição da forma "Algum x não é y" (onde "algum" quer dizer "pelo menos um"). Se é verdade que todo x é y, então é falso que algum x não é y. Se é falso que todo x é y, então é verdade que algum x não é y. Por outro lado, se é verdade que algum x não é y, então é falso que todo x é y. Por outro lado, se é falso que algum x não é y, então nenhum x não é y, e, logo, é verdade que todo x é y.
No que caso de uma proposição que tem a forma "Nenhum x é y", sua contraditória é uma proposição da forma "Algum x é y" (onde "algum" quer dizer "pelo menos um"). Se é verdade que nenhum x é y, então é falso que algum x é y. Se é falso que nenhum x é y, então é verdade que algum x é y. Por outro lado, se é verdade que algum x é y, então é falso que nenhum x é y. Por outro lado, se é falso que algum x é y, então nenhum x é y, e, logo, é verdade que nenhum x é y.
De igual forma, a contraditória de uma proposição que tem a forma "Algum x é y" é "Nenhum x é y", e a contraditória de uma proposição que tem a forma "Algum x não é y" é "Todo x é y".
Repetindo, os seguintes pares de proposições são contraditórios:
p não-p
x é y x não é y
Todo x é y Algum x não é y
Nenhum x é y Algum x é y
Se alguém afirma uma proposição do lado esquerdo e eu afirmo a correspondente proposição do lado direito, eu estou contradizendo essa pessoa, e nós dois não podemos estar com a verdade: um dos dois está errado.
Assim,
-- se alguém afirma "A escola reproduz as relações sociais" e eu afirmo "A escola não reproduz as relações sociais", nós dois não podemos estar certos: um de nós está errado.
-- se alguém afirma "A educação é o desenvolvimento das potencialidades do indivíduo" e eu afirmo "A educação não é o desenvolvimento das potencialidades do indivíduo", nós dois não podemos estar certos: um de nós está errado.
-- se alguém afirma "Toda aprendizagem é auto-aprendizagem" e eu afirmo "Alguma aprendizagem não é auto-aprendizagem", nós dois não podemos estar certos: um de nós está errado.
-- se alguém afirma "Nenhum aprendizagem é decorrente do ensino"" e eu afirmo "Alguma aprendizagem é decorrente do ensino", nós dois não podemos estar certos: um de nós está errado.
No caso de proposições contraditórias, é bom que se repita, ambas não podem ser verdadeiras nem ambas podem ser falsas. Uma delas sendo verdadeira, a outra tem que, necessariamente, ser falsa, e uma delas sendo falsa, a outra tem que, necessariamente, ser verdadeira.
b. Proposições Contrárias e Sub-Contrárias
As proposições que têm a forma "Todo x é y" e "Nenhum x é y" não são contraditórias. São contrárias. As duas não podem ser verdadeiras, mas ambas podem ser falsas (no caso de algum x ser y e de algum x não ser y).
Assim, se alguém diz "Todo homem de negócio é desonesto" e eu afirmo "Nenhum homem de negócio é desonesto", nós dois não podemos estar certos: pelo menos um de nós tem que estar errado. Mais provavelmente os dois estejamos errados.
As proposições que têm a forma "Algum x é y" e "Algum x não é y" não são contraditórias. São sub-contrárias. As duas não podem ser falsas. Se é falso que algum x é y, então é verdade que algum x não é y (supondo que exista algum x). Igualmente, se é falso que algum x não é y, então é verdade que algum x é y (novamente, supondo que exista algum x). No entanto, é possível que ambas sejam verdadeiras (no caso de algum x ser y e de algum x não ser y).
Se alguém, porém, afirma, "Algum rico é ladrão" e eu afirmo "Algum rico não é ladrão", nós dois podemos estar certos, mas não é possível que nós dois estejamos errados.
Proposições contrárias não podem, ambas, ser verdadeiras, mas podem, ambas, ser falsas.
Proposições sub-contrárias não podem, ambas, ser falsas, mas podem, ambas, ser verdadeiras.
No último caso, isto é, quando alguém afirma (por exemplo), "Algum rico é ladrão" e eu afirmo "Algum rico não é ladrão", é claro que nós dois podemos estar certos, mas pode não ser tão claro porque não possível que nós dois estejamos errados. É conveniente esclarecê-lo um pouco mais. Para tanto, porém, é preciso incluir a noção de proposições subalternas.
c. Proposiçõe