Eduardo O C Chaves
A filosofia é, por muitos, considerada a mais perfeita expressão da racionalidade humana.
No entanto, a razão é freqüentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia existe uma corrente irracionalista tão forte que, atravessando os milênios, encontra no século XX um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.
As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.
O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.
O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos.
Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.
O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanaticismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos ponto de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.
Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem os mais estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista.
Igualmente, o ceticismo tem sido um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, diz o cético, é que nada sei.
Os céticos são simpáticos: haja vista Hume, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas -- e espalha o irracionalismo.
O relativismo também é uma filosofia simpática.
O relativismo procura nos convencer as pessoas de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as de outras épocas, ou de outras culturas) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto os pontos de vista de nossa própria época, ou de nossa própria cultura).
Isso é assim, afirma o relativismo, porque as idéias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio.
Assim sendo, não é válido (por exemplo) criticar o budismo a partir do catolicismo romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.
Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.
Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de idéias, de pontos de vista, de cultura, enfim.
Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas -- e espalha o irracionalismo.
Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, um mixto de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.
É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento, então não há como ser racional. Por que adotar este -- e não aquele -- ponto de vista? Por que pronunciar este -- e não aquele -- ponto de vista? Porque preferir esta -- e não aquela -- obra de arte?
E esta a problemática que será objeto de análise neste curso. O tema básico do curso -- Ceticismo, Relativismo, e a Defesa da Razão -- se pretende provocador.
O objetivo geral do curso é mostrar a importância da razão. O objetivo específico é colocar o aluno em contacto, de um lado, com o pensamento de representantes importantes do pensamento irracionalista, e, de outro, com a crítica racionalista ao ceticismo e relativismo.
Como se assinalou, o curso parte do pressuposto de que a nossa cultura, hoje, é cética e relativista, e de que, portanto, para a maior parte dos alunos, mesmo em um curso de Pós-Graduação, as idéias a serem expostas em defesa da razão poderão parece, na melhor das hipóteses, resquícios de uma época que mantém com a nossa relação análoga à que prevalece entre os cavaleiros românticos da Idade Média e a carnalidade enlatada que passa por romance nas telas de nossa TV. Que seja.
Ser racionalista é, hoje, ser alvo de críticas, mesmo de ridículo.
A nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que "paradigmas" semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infraestruturas econômicas alternativas, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que a moralidade se tornou uma questão de gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um julgamento estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas e estapafúrdias que sejam, são acolhidas com a mesma seriedade que as decorrentes de trabalho sério e rigoroso; em que auto-expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra-sugestionáveis são tidos como espíritos críticos; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.
O curso pretende atrair alunos interessados em conhecer algo diferente desse bromato cultural que têm sido forçados a engulir nos bancos escolares, mesmo (ou, talvez, especialmente) universitários, nos discursos de nossos políticos, nos livros à venda em nossas livrarias, nas peças de nosso teatro, nos filmes de nossas telas, nos programas de nossa televisão.
Entre as teses que serão defendidas neste curso estão as chamadas "Leis da Lógica":
Toda afirmação (inclusive teorias científicas, juizos morais e juizos estéticos), ou é verdadeira ou falsa (Lei do Terceiro Excluído);
Nenhuma afirmação, devidamente qualificada, é verdadeira num contexto (temporal, espacial, social, cultural, econômico) e falsa em outro (Lei da Não-Contradição);
O que é verdadeiro, é sempre verdadeiro; o que é falso, sempre falso (Lei da Identidade).
Também serão reabilitadas e defendidas teses metafísicas e epistemológicas, como:
A primazia da realidade sobre os conceitos. A realidade existe independenetemente de nossa percepção e de qualquer conceito que possamos formar sobre ela. Através dos sentidos, o ser humano apreende a realidade, não a constrói (Realismo Metafísico);
A primazia dos conceitos sobre as palavras. É o pensamento que condiciona a linguagem, não vice-versa (Realismo Epistemológico).
Serão defendidas ainda as seguintes teses:
A ciência é objetiva e racional (contra os proponentes da sociologia do conhecimento e da ciência);
Existe conhecimento ético : julgamentos morais são verdadeiros ou falsos, e não são meramente emoções e sentimentos disfarçados de conhecimento (contra emotivismo ético, etc.);
Existe objetividade na arte (contra expressionismo, etc.)
Quem já estiver tão seguro da verdade que não julgue ser mais necessário procurá-la é insistentemente incentivado a nao se matricular, para nao desperdiçar tempo, seu e dos outros. Espera-se dos alunos uma atitude de abertura para com a busca da verdade e uma convicção básica de que a racionalidade é a melhor arma nessa busca.
1. Introdução: O Irracionalismo e a Escravidão
2. Raizes Historicas do Irracionalismo e do Subjetivismo
A. Raizes Místicas
Platão e as Origens
Hegel e os Tempos Modernos
B. Raizes Céticas
Pirro e o Ceticismo Clássico
Descartes e a Tendência Pseudo-Racionalista
Hume, o Ceticismo Moderno e a Tendência Pseudo-Empirista
Kant e o Irracionalismo Transcendental
3. Raizes Históricas do Racionalismo e do Objetivismo
A. Raizes Metafísicas
A Realidade Enquanto Cognoscível
O Ser Humano Enquanto Cognoscente
B. Raizes Lógicas
O Princípio do Terceiro Excluído
O Princípio da Não-Contradição
O Princípio da Identidade
C. Raizes Epistêmicas
A Verdade e a Realidade
A Verdade e a Coerência
A Verdade e a Certeza
A Verdade e a Evidência
4. Versões Contemporâneas de Irracionalismo e Subjetivismo
A. Nas Ciências Humanas
Mannheim e a Sociologia do Conhecimento
O Marxismo e a Lógica Dialética
A Teoria das Ideologias
B. Nas Ciências Naturais
Kuhn e as Revoluções Científicas
Lakatos e os Programas de Pesquisa
Feyerabend e a Revolta Contra o Método
C. Na Filosofia
O Existencialismo e Doutrinas Afins
A Filosofia Analítica e da Linguagem
A Filosofia Hermenêutica
D. Na Crítica Literária e no Direito
A Exegese e o Conflito das Interpretações
A Possibilidade da Crítica
A Hermenêutica Jurídica
5. Versões Contemporâneas de Racionalismo e Objetivismo
A. Karl Popper: Um Racionalista Qualificado
A Natureza do Conhecimento
A Objetividade do Conhecimento
Conhecimento e Racionalidade
A Defesa da Racionalidade
B. Ayn Rand: Uma Racionalista Irrestrita
Metafísica
Epistemologia
Ética
Política
Economia
6. Conclusão: o Racionalismo e a Liberdade
Todas as aulas serão expositivas e "discutitivas" (ou dialógicas). A filosofia apenas faz avanços na medida que opiniões e teorias são cuidadosamente analisadas e criticadas.
Para cada unidade haverá um conjunto de textos, que deverão ser lidos em casa, antes da aula. Parte de cada aula será usada para explicação da problemática encontrada nos textos, o restante sendo dedicado à sua discussão.
O rendimento do aluno será avaliado através de:
a) sua participação nas discussões em sala de aula (valor 30% do total);
b) um trabalho individual sobre um dos temas das Unidades I a III, a ser entregue no máximo até o último dia letivo de abril (valor 35% do total);
c) outro trabalho individual sobre um dos temas das Unidades IV a VI, a ser entregue no máximo até o último dia letivo de junho (valor 35% do total).
O critério preponderante que será aplicado na avaliação é o da capacidade de argumentação dos alunos. Isto significa que os alunos serão avaliados não tanto em função de teses que proponham, de pontos de vista que apresentem, mas sim em função de como argumentam a favor dessas teses e de como justificam esses pontos de vista.
Argumentação e justificação envolvem aspectos lógicos (coerência, validade formal de raciocínio, etc), aspectos epistemológicos (apelo à evidência, por exemplo), bem como outros aspectos, como, por exemplo, clareza conceitual, que é inseparável de domínio eficiente da linguagem.
As normas da Universidade determinam que será reprovado por faltas o aluno que faltar a mais de 25% das aulas. Como teremos 15 aulas, o limite máximo de faltas é três aulas.
Os trabalhos dos filósofos mencionados e algumas obras secundárias.
Os livros a seguir, constantes da Biblioteca da Faculdade de Educação, a maior parte deles em português, deverão ser usados ao longo do semestre. É desnecessário enfatizar que o aluno não deve se limitar a esses livros e que, dos aqui listados, apenas alguns capítulos poderão ser úteis, em alguns casos.
Os livros estão apresentados mais ou menos na ordem em que serão aproveitados.
William W. Bartley III, Retreat into Commitment
Roger Trigger, Reason and Commitment
Robert Banché, La Logique et son Histoire d'Aristote à Russell (em português: História da Lógica de Aristóteles a Bertrand Russell)
P. T. Geach, Reason and Argument
René Descartes, Méditations (em português: Meditações)
René Descartes, Discours de la Méthode (em português: Discurso sobre o Método)
David Hume, An Inquiry Concerning Human Understanding (em português: Uma Investigação Acerca do Entendimento Humano)
David Hume, An Inquiry Concerning the Principles of Morals (em português: Uma Investigação Acerca dos Princípios da Moralidade)
Immanuel Kant, Kritik der reinen Vernunft (em português: A Crítica da Razão Pura)
Karl Mannheim, Ideologie und Utopie (em português: Ideologia e Utopia)
Henri Lefebvre, Logique Formelle, Logique Dialectique (em português: Lógica Formal / Lógica Dialética)
Jorge Larrain, The Concept of Ideology
Thomas Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions (em português: A Estrutura das Revoluções Científicas)
Imre Lakatos & Alan Musgrave, Criticism and the Growth of Knowledge (em espanhol: Crítica y Conocimiento)
Paulo Feyerabend, Against Method (em português: Contra o Método)
F. H. Heinemann, Existentialism and the Modern Predicament
Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations (em português: Investigações Filosóficas)
E. D. Hirsch, Jr., The Aims of Interpretation
Francis J. Coleman, Contemporary Studies in Aesthetics
Lourival Vilanova, Lógica Jurídica
L. Fernando Coelho, Lógica Jurídica e Interpretação das Leis
Karl Popper, Conjectures and Refutations (em português: Conjecturas e Refutações)
Karl Popper, The Logic of Scientific Discovery (em português: A Lógica da Pesquisa Científica)
Karl Popper, Objective Knowledge (em português: Conhecimento Objetivo)
Karl Popper, The Open Society and Its Enemies (em português: A Sociedade Aberta e seus Inimigos)
Karl Popper, Unended Quest (em português: Autobiografia Intelectual)
Ayn Rand, Atlas Shrugged (em português: Quem é John Galt?)
Ayn Rand, Capitalism: The Unknown Ideal
Ayn Rand, Introduction to Objectivist Epistemology (Expanded Second Edition)
Ayn Rand: The New Left: The Anti-Industrial Revolution
Ayn Rand, Philosophy: Who Needs It?
Ayn Rand, The Romantic Manifesto
Ayn Rand, The Virtue of Selfishness
Ayn Rand, The Voice of Reason: Essays in Objectivist Thought
Last revised: May 02, 2004