Zeferino Vaz
Eduardo O C Chaves
(sob o pseudênimo de Costa Carvalho)
Um ano atrás, no dia de hoje, morria Zeferino Vaz. Infelizmente, muitos daqueles que, há um ano, com uma lágrima nos olhos ajudaram a enterrar o corpo, transformaram-se hoje, com um sorriso cínico nos lábios, em verdadeiro enterro da UNICAMP, em conspurcar a memória do seu criador e implantador, do homem que foi responsável pela convocação e reunião daqueles que trouxeram à UNICAMP o prestígio que ela merecidamente desfruta.
Zeferino tinha seus defeitos, e não há porque negá-los. Em retrospectiva, talvez a maior crítica que se pode fazer a ele, no tocante à UNICAMP, é que ele alçou, para altos postos na administração da Universidade, pessoas de dúbios princípios morais e de questionável competência, cujo principal mérito era sua lealdade (e conseqüente obediência) ao ex-Reitor. Morto este, eles se viram, de repente, na necessidade de ter que decidir o que fazer ( e não apenas, como antes, obedecer as ordens). E fizeram o que todos sabemos: começaram a destruir a obra de Zeferino. Transformaram-se, sem o controle a que antes eram submetidos, em verdadeiros semeadores de destruição.
No assalto atrapalhado que montaram à UNICAMP vêem-se, de repente, acuados e resolvem que têm que ganhar a qualquer preço – mesmo ao custo de destruir a Universidade na tentativa de manter seus privilégios e alcançar seus objetivos políticos. Mesmo ao custo de conspurcar a memória de Zeferino.
Ou vejamos.
Em parecer que já se tornou célebre, Zeferino defendeu, ardorosamente, o direito de Professores Titulares contratados poderem ser Reitor e Diretores na Universidade, segundo os Estatutos e o Regimento Geral. Seus ex-acólitos estão indo a extremos na tentativa de provar o contrário. Encomendaram um parecer ao Conselho Estadual de Educação, contrataram advogados de renome ( e alto preço) para questionar o princípio que Zeferino defendera, e que permitiu que esta Universidade se tornasse no que é: o do privilegiamento da competência e não da titulação formal.
Agora estão indo além. Em manifestação feita, em nome do atual Reitor, num dos processos movidos contra ele na Justiça de Campinas, questionando as ações suas que levaram a UNICAMP à crise atual, seus prepostos não hesitam em afirmar que os atuais Professores Titulares contratados da Universidade nem isso são. A grande maioria deles foi contratada por Zeferino. O atual Reitor e seus aliados, não hesitam em dizer, na Justiça, que todos estes contratos, a maioria deles assinado por Zeferino, são ilegais, como ilegal é a Portaria, baixada por Zeferino, depois de ouvido o Conselho Diretor (hoje virtualmente fechado pelo atual Reitor), para regulamentar os contratos de professores que não tivessem a titulação exigida para o preenchimento do cargo em caráter efetivo. Se resolverem, como é provável, levar esta assertiva às suas últimas conseqüências práticas, acabarão por taxar de ilegais os contratos da maioria absoluta dos professores da Universidade! Como se vê, o atual Reitor não hesita em atribuir ilegalidades a seu predecessor, já falecido, para encobrir as suas próprias arbitrariedades.
São os que ora são atacados por Sua Magnificência que estão, na Justiça, tentando reerguer a visão de Zeferino e defender a legalidade da Portaria por ele baixada, dos contratos por ele assinados, do princípio por ele defendido de que, dentro da Universidade, é a competência, e não a titulação formal, que deve ser levada em conta.
Ao transmitir o cargo ao atual Reitor, Zeferino parecia pressentir o que aquele que agora ia gerir os destinos da Universidade poderia, com seus aliados de momento e de convivência, trazer sobre ela. Disse então, profeticamente:
"A Universidade Estadual de Campinas... está solidamente constituída, de tal sorte que nenhuma força externa pode destruí-la, nenhuma. Cuidado, porém, com as forças internas, da mediocridade, da inveja e da ambição desmedida, porque a mediocridade e a inveja se unem com uma solidariedade impressionante, invejável, para combater o talento, o ideal, a insatisfação frente ao conhecimento adquirido, que são as forças que constróem. Meu caro e Magnífico Reitor Plínio Alves de Moraes: que Deus o abençoe e o ajude a carregar o pesado encargo que ora lhe transfiro".
A julgar pelo resultado, alguns encargos são, para algumas pessoa, demasiado pesados, mesmo com a invocada ajuda divina.
Campinas, 09 de fevereiro de 1982.
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Last revised: 02 May 2004