A Universidade e "o Suicídio das Elites"
Eduardo O. C. Chaves
Em artigo de capa, na edição de 8/5/91, VEJA critica, com justiça, as "universidades perdulárias e ruins" do Brasil. Não tenho a intenção de negar os fatos apontados. Meu objetivo é apontar uma importante causa do problema, sobre a qual VEJA, surpreendentemente, se calou.
É do conhecimento geral que as universidades brasileiras estão, já há algum tempo, dominadas por grupos vinculados a partidos políticos de esquerda, dentre os quais se destacam o PT, o PCB, o PC do B, o PSDB, o PSB. Quase sem exceção, os reitores são hoje escolhidos através de eleição. Mesmo quando o direito de nomeação recai sobre uma autoridade extra-universitária, o nomeante acata, em regra, a vontade da comunidade universitária (professores, funcionários e alunos). Assim sendo, as universidades brasileiras hoje são, quase sem exceção, dirigidas por pessoas que elas próprias escolheram. E as escolhas obedecem a critérios político-partidários, não acadêmicos.
Para entender melhor o que se passa na universidade, é forçoso reconhecer que os partidos políticos ditos de esquerda, principalmente os de inspiração marxista, adotaram a tática de chegar ao poder, não através do apoio maciço do proletariado, mas sim através da cooperação dos chamados intelectuais (entre os quais se incluem os professores universitários). A aplicação da tática envolveu o controle dos órgãos formadores da opinião pública, como as universidades (e os meios de comunicação, principalmente os jornais). Por isso, tomaram-nas de assalto.
Como conseguiram fazer isso?
Em primeiro lugar, inchando as universidades com pessoal cuja única qualificação é a co-militância política. No tocante a professores, isto foi feito criando mais e mais disciplinas sobre os mesmos surrados temas, para pressionar a administração a admitir mais professores para ministrá-las. No que diz respeito a funcionários, seu número cresceu depois que se tornaram eleitores dentro da universidade. Como tais, tornaram-se politicamente importantes.
Para dar um exemplo, a UNICAMP detém o que acredito ser um recorde mundial, que VEJA infelizmente omitiu: chega bem perto de um funcionário/professor por aluno, mesmo quando excluído do cômputo o pessoal de obras.
VEJA sublinhou o fato de que as universidades têm professores e funcionários demais, mas não explicou sua causa. A causa aí está.
Mas números, em si só, não significam tanto. É preciso, em segundo lugar, organização. Nesse aspecto, os partidos políticos de esquerda se estruturaram para dar aos seus militantes dentro da universidade as condições de ali ganhar o poder. Conseguiram, ocupando todos os espaços possíveis. O ex-governador Orestes Quércia, hoje assessorado pela chamada "esquerda Pierre Cardin", fez o que a universidade queria: com seu Decreto concedendo autonomia às universidades estaduais, abdicou do direito -- eu diria mesmo do dever -- de exercer um certo controle, em nome da população que o elegeu, sobre o que se passa dentro das universidades e sobre como é gasto o dinheiro do povo paulista ali aplicado. Hoje, as universidades paulistas não prestam contas a ninguém.
Em terceiro lugar, a esquerda também combateu no nível das idéias. A arma ideológica que lhe permitiu chegar ao poder dentro da universidade foi o democratismo igualitarista. Negligenciando o fato de que a universidade é uma instituição de elite e hierárquica, voltada para a preparação de dirigentes e organizada em função do saber, a esquerda "democratizou" a universidade.
O democratismo da esquerda é vinculado a um outro chavão ideológico: o igualitarismo. A tese igualitarista se opõe ao caráter elitista e hierárquico da universidade. Ela nega, de um lado, que a função da universidade seja preparar as pessoas mais competentes para serem as elites dirigentes do país (afirmando que a universidade deve servir, diretamente, às "camadas populares" -- o que explica os tais cursos de tênis ministrados na favela, mencionados no artigo da VEJA). De outro lado, a tese igualitarista nega que, dentro da universidade, deva haver uma hierarquia, baseada no saber, na experiência, na competência. Dirige, hoje, a universidade, quem tem mais votos. E tem mais votos quem pertence aos partidos "certos" e faz política.
Vista a questão deste ângulo, não é de surpreender o que está acontecendo. O problema fundamental da universidade brasileira não é falta de recursos nem professores incompetentes e relapsos (embora esses problemas existam). As universidades paulistas (para dar um exemplo) têm recursos consideráveis (um percentual do ICMS arrecadado pelo Estado) e têm professores competentes e responsáveis. Mas os recursos são desperdiçados com um número elevado de professores e elevadíssimo de funcionários, muitos dos quais são incompetentes e relapsos.
Professores e funcionários reclamam melhores salários. Os que efetivamente produzem, merecem ganhar mais. Mas a ideologia igualitarista impede que se pague melhor a quem produz mais. Todos, num mesmo nível, têm que ganhar o mesmo salário. Como a fonte de recursos é limitada, e mais de 90% desses recursos já estão comprometidos com a folha de pagamento, as universidades estão diante de um sério problema. O que fazer?
As duas únicas soluções que conheço são: diminuir a despesa, inclusive reduzindo pessoal, ou aumentar a receita, inclusive cobrando dos alunos.
Os dirigentes universitários não tomam nenhuma dessas medidas para corrigir o problema porque foram eleitos por professores, funcionários e alunos e sem o seu respaldo não se sustentam.
Por isso, a chamada de capa da VEJA ("O Suicídio das Elites") é inadequada. As elites não estão se suicidando. Estão, isto sim, sendo liqüidadas por partidos políticos que pregam que a sociedade não deve possuir elites, em nenhum sentido do termo, e que agem no sentido de realizar o que pregam. Quando esses partidos ganham controle da universidade, as elites são as primeiras vítimas -- mas não é de suicídio que se trata: é de assassinato mesmo. Premeditado.
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Last revised: 02 May 2004