O Paradoxo da Transformação da Sociedade pela Educação -- A Propósito do Trabalho de Leonardo Waks
Eduardo O C Chaves [1]
A excelente apresentação de Leonard Waks é, na minha opinião, o primeiro trabalho nesta conferência a encarar o tema proposto de frente: o desafio da educação do século XXI, principalmente na área das ciências. Waks é o primeiro a realmente encarar o futuro, em vez de ficar contemplando as realizações passadas. E propõe-se a construção de um futuro diferente e melhor, não apenas uma mera continuação do presente. Waks não hesita em "sujar as mãos" com questões de valor, discutindo de frente questões relativas a fins, e não só a meios. Por tudo isso ele merece o agradecimento do comentarista, e, acredito, da audiência.
O sub-título de seu trabalho -- "O Paradoxo dos Estudos 'Verdes'" -- pode parecer, à primeira vista, um pouco enigmático. Por isso começo tentando fazer minha leitura desse paradoxo.
É opinião de Waks que não estamos contentes com a sociedade em que vivemos. Com isso estou plenamente de acordo (embora divirja dele em relação às razões pelas quais a nossa sociedade deixa a desejar). As características que ele menos aprecia em nossa sociedade industrial (ou pós-industrial) são o individualismo, a competitividade, o materialismo, o consumismo, a degradação do meio ambiente, a ignorância, a superficialidade e a passividade política das pessoas [2]. Em substituição a essa, Waks gostaria de ter uma sociedade menos individualista e competitiva, que desse mais ênfase à cooperação entre as pessoas, em que seres humanos bem informados vivessem em paz com a natureza e envolvidos na melhoria da qualidade de vida de todos e se conduzissem não em função do consumo material, mas sim em função de valores mais elevados.
Como cientistas e educadores, acreditamos que a ciência e a educação têm um papel importante na transformação da nossa sociedade (como testemunham esta Conferência, os vários projetos de Ciência, Tecnologia e Sociedade, os Estudos "Verdes", etc.). O problema apontado por Waks, porém, é que a ciência e a educação vêm tendo um papel importante na criação e manutenção da sociedade que nós conhecemos e, provavelmente, vão desejar continuar a exercer esse papel (como bem atestou a palestra do Secretário de Ciência e Tecnologia, José Goldenberg nesta Conferência). Donde o paradoxo.
Waks enfatiza (a meu ver corretamente) que, para que surja a nova sociedade que todos desejamos, não basta meramente dar uma "ajeitada" nesta -- fazer o que ele, apropriadamente, chama de um "techno-fix". Quem mexe apenas no detalhe, apenas em partes, demonstra, de certa forma, estar satisfeito com o resto, deixa o todo como está.
Para Waks, introduzir novas disciplinas no currículo (Ciência, Tecnologia e Sociedade, Meio Ambiente, etc.) não passa de um "techno-fix": é colaborar (legitimando) com o atual sistema de produção industrial, com o consumismo, etc. É por isso que ele diz, corajosamente, que CTS, Estudos "Verdes", etc. são, hoje, parte do problema, não da solução.
Para que a ciência e a educação deixem de ser parte do problema e passem a ajudar a encontrar a solução do problema é necessário que desenvolvamos uma visão de um novo jeito de viver, dentro do qual esteja embutido uma nova forma de fazer ciência, tecnologia e educação, que não seja um mero "techno-fix" da forma atual. Para que comecemos a delinear essa visão, é necessário investigar o papel da ciência e da tecnologia na sociedade e na escola.
Waks, ao discutir as possibilidades de transformação da sociedade, adota uma postura mais exploratória (como é de esperar, e, de resto, correto).
Ele sugere que, no âmbito da sociedade, estudemos os vários componentes do processo de socialização: a família, as instituições religiosas, culturais e políticas, a indústria, os meios de comunicação de massa, e, naturalmente, a escola. Ele faz uma análise muito reveladora da televisão, como meio de comunicação de massa, mostrando que o problema, aí, não está tanto no tão condenado conteúdo dos programas, mas na própria "forma" da televisão, que é um meio que induz a passividade, a mera receptividade, a não participação, quando não a sonolência. Realmente transformar a televisão, portanto, não é fazer um "techno-fix" dos programas, não é dar-lhes um conteúdo ou um papel mais educativo ou cultural, mas, sim, radicalmente transformar o "medium".
Nada tenho a acrescentar a essa brilhante análise. Só gostaria de ter visto Waks discutir mais explicitamente como um "medium" como a televisão pode ser radicalmente alterado sem perder as características que o tornam, hoje, um meio de comunicação de massa digno de atenção, que verdadeiramente "seduz" milhões de pessoas.
Muitos educadores acharam que o computador, visto que pode ser um "medium" interativo, poderia vir a suplantar a televisão no interesse das crianças. Até agora isso não tem acontecido. Um pouco, talvez, porque o preço do computador ainda não permitiu que ele se tornasse tão popular como a televisão. Mas não creio ser apenas esse o problema. A maior dificuldade na popularização do computador como recurso instrucional está no fato de que ele exige muito mais do usuário, e, portanto, só tende a atrair quem já tem, por alguma razão, predisposição a um envolvimento mais ativo com o "medium". Alguns estudos (que geraram interesse até na revista Byte) têm mostrado que crianças que, por alguma razão, têm uma atitude passiva em sala de aula, acabam tendo uma atitude passiva também diante do computador, dando-se melhor com programas de instrução programada do que com programas que exigem mais delas.
No âmbito mais restrito da escola, Waks sugere que se explore o potencial do "currículo oculto". Eu, pessoalmente, gostaria de ter visto Waks discutir em mais detalhe o problema dos conteúdos curriculares, em justificação de sua tese de que alterações curriculares, ou de conteúdo de disciplinas, nada mais são do que "techno-fixes". Estou convicto de que idéias têm uma grande força e que, portanto, a introdução de conteúdos adequados em nossos currículos pode vir a ter um grande efeito transformador.
Termino, levantando algumas questões, mais para provocar discussão do que como críticas ao trabalho.
Primeiro, indago de Waks se o tom de seu trabalho não seria por demais desalentador para uma audiência como a desta Conferência, que consiste basicamente de professores. O que pode ser feito no âmbito da sala de aula de hoje? Não estaria Waks sendo exageradamente pessimista quanto à função da sala de aula, ao propor que o papel da escola deveria privilegiar o "currículo oculto"?
Segundo, e na mesma linha, indago de Waks se não seria quase insultuoso para professores que, no Brasil pelo menos, geralmente se vêem como politicamente progressistas, colocando-se, freqüentemente, à esquerda na política, sugerir que eles (talvez inconscientemente) colaboram com o atual sistema de produção industrial.
Terceiro, indago de Waks como ele pode considerar a atual sociedade individualista, se tudo nela é "de massa": educação, cultura, medicina, transporte, meios de comunicação. Será que parte do problema de nossa sociedade não está no fato de que o indivíduo acabou se perdendo no coletivo?
Quarto, indago de Waks como ele imagina que uma sociedade menos individualista e competitiva, que dê mais ênfase à cooperação entre as pessoas e que se conduza não em função do consumo material, em que seres humanos bem informados vivem em paz com a natureza, e em função de valores mais elevados, fará para sustentar o nível de conforto material a que estamos acostumados e que foi obtido em grande parte através do individualismo, da competição, e da exploração da natureza.
NOTAS
[1] Professor de Filosofia da Educação e Teoria do Conhecimento da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
[2] Eu, particularmente, não considero as quatro primeiras características indesejáveis, e considero a questão da degradação do meio ambiente um problema muito discutível. Por falta de tempo/espaço não vou discutir a questão aqui. Somente no último parágrafo volto a tocar (de leve) no assunto.
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Last revised: May 02, 2004