A Virtualização da Realidade [*]

 Eduardo O C Chaves


A expressão "realidade virtual", embora cunhada recentemente, se refere a algo que, em certo sentido, sempre foi do conhecimento de todos. Os acontecimentos descritos em obras literárias de ficção ou exibidos na maioria das peças de teatro, filmes, e novelas representam uma "realidade virtual" -- isto é, uma realidade que, conquanto não exista no plano "real", existe no plano "virtual", isto é, imaginado ou potencial.

O existir da realidade virtual é um existir em um sentido válido, embora fraco, do termo. Os acontecimentos dessa realidade virtual (livros de ficção, peças, filmes, novelas) sem dúvida afetam nossas vidas, nos emocionam, não raro nos transformam. Algumas pessoas, principalmente as mais simples, confundem essa realidade virtual -- que, por paradoxal que pareça, é uma "realidade não-real" -- com a "realidade real" -- por redundante que soe essa expressão. É por isso que elas detestam determinados atores porque os personagens que eles representam na tela geralmente são maus, ou que elas se decepcionam quando descobrem que a vida pessoal de um ator não se coaduna com a imagem de integridade identificada com o personagem que ele encarna na tela.

Se a expressão "realidade virtual" se referisse, hoje, somente àquilo que tradicionalmente chamamos de ficção, e que, embora afete nossas vidas, o faz apenas através da imaginação, seria difícil entender porque essa expressão vem aparecendo com tanta freqüência nas revistas, especializadas ou não, e mesmo nos jornais, seja na sua forma original ("realidade virtual"), seja em formas derivativas ("escritório virtual", "loja virtual", "shopping center virtual", “livraria virtual”, "banco virtual", "dinheiro virtual", "empresa virtual", "conferência virtual", "sala de reuniões virtual", "biblioteca virtual", "cinema virtual", "jornal virtual", "comunidade virtual", "grupo de trabalho virtual", "turismo virtual", "férias virtuais", "sexo virtual", etc.).

O sentido da expressão "realidade virtual" (e de suas formas derivativas) não tem, hoje, entretanto, essa conotação de fictivo, apenas imaginado. Quando hoje falamos, por exemplo, em "shopping center virtual", não estamos nos referindo a um shopping center que existe apenas na ficção ou na imaginação, e, portanto, apenas em um sentido fraco do termo do "existir". Estamos nos referindo, isto sim, a um shopping center que existe em um sentido forte do termo, ainda que sua existência ou realidade não possa ser delimitada precisamente em termos espaço-temporais. Tanto o shopping center virtual de hoje existe que é possível nele fazer compras, e as compras nele feitas não são "de faz-de-conta": são "realmente reais", tanto que são, de fato, entregues na casa de quem as comprou, que, por elas, tem que pagar -- ainda que com o que poderia ser chamado de "dinheiro virtual" (como, por exemplo, um cartão de crédito ou de débito).

A realidade dita virtual de hoje é, portanto, uma realidade que se distingue, conceitualmente, do reino do ficcional e do imaginário. O que a torna diferente da realidade comumente vista como tal é o fato de que a realidade virtual é uma realidade tornada possível pela revolução da informática -- dos computadores e das telecomunicações.

A virtualização da realidade de que trata este artigo pode ser bem ilustrada no caso da chamada "comunidade virtual". O termo "comunidade" tem vários sentidos. Seu sentido principal, porém, talvez seja o que faz referência a um grupo social cujos membros habitam uma determinada região e, em alguns casos, possuem memória e características comuns que individualizam o grupo e lhe dão identidade. Em comunidades pouco coesas talvez a única característica comum do grupo seja o fato de habitar uma determinada região. Mas em geral as pessoas fazem suas amizades na comunidade em que vivem e essas amizades não raro refletem interesses comuns (i.e., "comunidade de interesses").

Uma comunidade virtual, no sentido em que a expressão se emprega hoje, é uma comunidade constituída por pessoas que não habitam necessariamente uma mesma região, mas que se encontraram e se mantiveram unidas através de computadores e telecomunicações -- isto é, através das muitas redes de telecomunicações que hoje interligam os usuários de computadores. Os membros de uma comunidade virtual podem habitar até mesmo continentes diferentes e viver em locais distantes uns dos outros vários fusos horários. O que os une é apenas uma comunidade de interesses, e o interesse comum às vezes é, pelo menos no início, simplesmente encontrar outras pessoas também curiosas em aprender a se comunicar através de seus computadores. Outros interesses comuns rapidamente aparecem, e os grupos às vezes se quebram em grupos menores para discutir tópicos que só interessam a alguns dos membros do grupo maior. De qualquer forma, é impossível negar que essas comunidades -- virtuais, porque transcendem o plano espacial, e, em certo sentido, também o temporal, visto que a comunicação entre seus membros é assíncrona -- sejam comunidades reais, em que as pessoas genuinamente se interessam umas pelas outras, dão suporte (na forma de informação, conhecimento, apoio emocional e até mesmo auxílio financeiro) umas às outras, por vezes se desentendem, e, em alguns casos, até mesmo se apaixonam. (Se o interesse pessoal, ou, quem sabe, o amor, leva membros da comunidade virtual a se encontrarem face-a-face, uma comunidade não-virtual por vezes se sobrepõe à virtual, criando interações humanas por vezes complicadas).]

A comunidade acadêmica e científica, que, a despeito de não habitar uma mesma região, já era chamada de comunidade mesmo antes dos computadores e das telecomunicações (já sendo, portanto, em certo sentido, virtual), é hoje eminente e paradigmaticamente virtual, no sentido de que seus membros se comunicam, primária e fundamentalmente, através de seus computadores e das redes criadas para interligar esses computadores, em especial através da Internet, a rede das redes de computadores instalados em instituições acadêmicas e de pesquisa e desenvolvimento. Não vai nenhum exagero ao dizer que muitos pesquisadores hoje têm mais e melhores relações com pesquisadores com os quais mantêm principalmente encontros virtuais, através da Internet, do que com pesquisadores da mesma instituição, cujas salas ou laboratórios às vezes estão no mesmo prédio ou corredor.

Conferências científicas em regra envolvem, ainda hoje, encontros face-a-face, e, portanto, não podem ser chamadas de virtuais. Mas a organização e o preparo dessas conferências geralmente são feitos por grupos de trabalho virtuais, cujos membros estão a milhares de quilômetros de distância uns dos outros, comunicando-se quase que exclusivamente por correio eletrônico. Os trabalhos científicos a serem apresentados nessas conferências e reuniões são enviados pela rede para o comitê organizador, que os distribui, também pela rede, a avaliadores, que devolvem seus pareceres pelo mesmo meio. É de esperar, porém, que aumente o número de conferências científicas totalmente virtuais, em que os participantes permanecem em seus próprios locais de trabalho ou em suas próprias casas e se reunem pela rede, através dos textos por eles escritos (teleconferência), ou através discussão oral de seus textos (teleconferência com áudio), ou até mesmo através de vídeo-teleconferência, que vem sendo paradoxalmente descrita como uma forma de "telepresença".

Na verdade, o chamado correio eletrônico é um correio virtual, pelo qual circulam correspondências eletrônicas. Contudo, seria um erro considerar o correio eletrônico apenas uma recriação digital do correio e das correspondências convencionais. A virtualização do correio acrescentou-lhe dimensões importantes, não existentes antes. Muitas dessas dimensões representam nítidas vantagens. Em primeiro lugar, a transmissão das mensagens e, portanto, a comunicação, é muito mais rápida -- virtualmente instantânea. Em segundo lugar, uma mesma mensagem pode ser enviada para vários destinatários simultaneamente. Em terceiro lugar, e mais importante, uma mensagem pode, hoje, em muitos casos, incluir som (a voz humana, por exemplo) e até mesmo imagens (um vídeo de quem está mandando a mensagem, por exemplo).

Por outro lado, a transmissão de mensagens por cabos convencionais, fibras ópticas ou via satélites coloca sérias questões de segurança, confidencialidade e privacidade que já foram adequadamente equacionadas no correio convencional. Além disso, com a comunicação, sem fios, entre computadores, que hoje começa a se viabilizar e até mesmo a se popularizar, a correspondência das pessoas literalmente circulará pelo espectro eletro-magnético, com seus textos, sons, e imagens digitais, fato que complica ainda mais o problema da segurança, confidencialidade e privacidade da comunicação.


[*] Trabalho publicado in Comunicação e Educação - Revista do Curso de Gestão de Processos Educacionais da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (Setembro/Dezembro de 1999).


© Copyright 1999 Eduardo O C Chaves


Last revised: May 02, 2004