Filosofia da Educação: Um
Encontro Possível entre o Professor e a Tecnologia
Eduardo O C Chaves (*)
Faz vinte anos que venho refletindo sobre o uso de tecnologia
(em especial de computadores) na educação (em especial na educação escolar). Ao
longo desse tempo tem me ficado bastante claro que o principal obstáculo ao uso
generalizado de computadores em escolas não é o custo do equipamento, não é a
inexistência de software adequado, e não é a dificuldade técnica de capacitar o
professor no manejo dessa tecnologia.
O principal obstáculo
tem estado no fato de que os educadores não conseguem entrar em um acordo sobre
o que fazer com o computador na escola, e a principal razão pela qual não chegam
a esse acordo tem que ver, não com o computador, em si, mas, sim, com o fato de
que os educadores, em geral, e dentre eles os professores, têm visões muito
diferentes do que seja a educação, e, conseqüentemente, de qual seja o papel da
escola na educação e deles próprios, professores, na escola. Dentro desse
quadro, dificilmente poderão concordar sobre qual deva ser o papel do computador
na educação.
Em 1983 (dezessete anos
atrás) publiquei um artigo na revista Em Aberto do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), do Ministério da Educação,
com o título “Computadores: Máquinas de Ensinar ou Ferramentas para Aprender?”
Nesse artigo observei que há controvérsias entre os educadores sobre a melhor
maneira de usar o computador na escola e que essas controvérsias decorrem de
diferentes visões da educação (em especial, da educação escolar):
“Fundamentalmente, a controvérsia maior ocorre entre os que defendem a utilização do computador basicamente como um instrumento de ensino e os que defendem a utilização do computador basicamente como uma ferramenta de aprendizagem. . . . Pode parecer que a questão não é tão fundamental assim e que tudo não passaria de uma questão de ênfase. Contudo, há aspectos importantes por detrás destas colocações.”
Nesta disputa, de um
lado estão os que vêem a educação escolar como um processo de transmissão, pelos
professores aos alunos, de conteúdos informacionais (fatos, conceitos e
procedimentos), sistematizados em áreas específicas (disciplinas) e organizados
seqüencialmente de forma cada vez mais complexa (séries). Nessa visão da
educação há, conseqüentemente, a valorização relativa do processo de ensino e
instrução e é colocado em relevo o papel do professor como detentor das
informações e dos conhecimentos a serem repassados aos alunos. A aprendizagem,
por sua vez, fica caracterizada como um processo, em grande parte passivo (do
ponto de vista do aluno), de absorção de informações e conhecimentos (em geral
apresentados de maneira totalmente desvinculada dos problemas fundamentais que
um dia levaram o ser humano a se interessar pelas questões que estão por trás
dessas informações e desses conhecimentos).
O computador, para os
que adotam essa visão da educação escolar, deve ser utilizado de modo a reforçar
ou tornar mais eficiente o trabalho do professor, sem que, em
decorrência da utilização do computador, seja fundamentalmente alterada a visão
de ensino e aprendizagem adotada. Para eles, o computador é apenas uma máquina
de ensinar – ou, mais corretamente, uma máquina que ajuda o professor a ensinar
melhor.
Do outro lado na
disputa estão os que vêem a educação (até mesmo a escolar) como um processo de
desenvolvimento, pelos alunos, de competências e habilidades, especialmente no
domínio cognitivo (mas sem negligenciar o domínio afetivo-emocional,
interpessoal e até mesmo psico-motor), com a conseqüente valorização relativa do
processo de auto-aprendizagem e de aprendizagem colaborativa, e, portanto, do
papel do aluno na construção ou elaboração de sua própria aprendizagem. Esta,
por seu turno, é vista como um processo ativo (do ponto de vista do aluno) de
construção das estruturas cognitivas (afetivo-emocionais, interpessoais e
psico-motoras) que vão lhe permitir alcançar vida pessoal realizada e
participação eficaz e significativa na vida da sociedade como cidadão e
profissional.
A aprendizagem, e,
conseqüentemente, a educação do aluno, é, nessa visão, algo que decorre,
diretamente, da ação do aluno – não do professor. A participação deste no
processo é indireta. O professor
deixa de ser o de detentor único e exclusivo de informações e conhecimentos cuja
absorção define a aprendizagem do aluno, e passa a ser, principalmente, o
motivador, o incentivador, o animador, o instigador, o facilitador do
aprendizado do aluno (tanto no aspecto cognitivo como nos aspectos
afetivo-emocional e interpessoal), sendo necessário, para tanto, que organize
“ambientes de aprendizagem” que sejam capazes de otimizar as oportunidades de
aprendizagem dos alunos – aprendizagem significativa, flexível, transferível
para outros contextos, e, por isso mesmo, duradoura.
Para os defensores
dessa visão, o papel principal da escola é fornecer aos alunos o maior número
possível de ambientes que favoreçam a aprendizagem do aluno, aprendizagem esta
que ocorre quando o aluno, em interação com esses ambientes, desenvolve
estruturas cognitivas (emocionais, interpessoais, etc.) que se traduzem em
competências e habilidades que lhe permitem, acima de tudo, continuar a aprender
e aprender sempre.
O computador, para os
que adotam essa visão da educação, deve ser utilizado, não como uma máquina de
ensinar, mas como uma ferramenta de aprender, isto é, como uma tecnologia que
pode facilitar, da parte dos alunos, o desenvolvimento das
competências e habilidades necessárias para que aprendam a aprender e para que
aprendam sempre. Inserindo-se nos
ambientes de aprendizagem em que os alunos se situam, o computador permite que
se ampliem os seus horizontes cognitivos e aumentem as suas possibilidades de
interação com o meio – em especial no que diz respeito a contatos com pessoas de
interesses afins e a acesso a informações relevantes aos seus interesses. O
computador, para os alunos, é uma ferramenta de aprender – uma tecnologia que
expande e aumenta o potencial da mente humana.
Fica claro, portanto,
de tudo o que foi dito, que há uma diferença fundamental entre essas duas visões
da educação e, conseqüentemente, do papel da escola na educação, do professor na
escola e da tecnologia em todo o processo. Mas essa diferença não deve ser
localizada no âmbito da tecnologia, mas, sim, no âmbito da filosofia da
educação.
É preciso registrar que
a tecnologia freqüentemente serve de agente catalisador da reflexão acerca
dessas questões, porque o computador, ao ser introduzido na escola, funciona
como agente perturbador da ordem estabelecida e permite que os que dela
discordem se valham dessa oportunidade para questioná-la. O computador provoca
essa discussão porque os alunos, em geral, têm muito mais facilidade para lidar
com ele do que os professores – e, portanto, se torna um agente subversivo da
ordem estabelecida na escola.
Proponentes da visão
mais convencional da educação em geral procuram “domesticar” o computador para
que ele se insira naturalmente naquilo que é feito na escola, sem maior
perturbação da ordem – mantendo, portanto, a hierarquia na escola. Os
professores, aqui, em geral preferem usar o computador com softwares
educacionais que eles podem pesquisar e dominar antes – não favorecendo usos
“abertos” do computador em que o que vai ser feito, e como vai ser feito, não
estão previamente definidos.
Proponentes da segunda
abordagem, por outro lado, às vezes de forma mais ou menos ingênua e mesmo
romântica, esperam que o computador, uma vez introduzido na escola, vá ajudá-los
a subverter a ordem estabelecida e a finalmente promover as mudanças que desejam
que aconteçam. Às vezes isso acontece – mas é raro. Na escola, como em qualquer
outro lugar, a tecnologia, por si só, em geral não promove mudanças. Estas, se
vierem a ocorrer, são comumente promovidas por pessoas – que, entretanto, podem,
ser valer da tecnologia para alcançar alguns de seus objetivos.
Em conclusão: o momento
da introdução da tecnologia (em especial do computador) na escola pode ser um
excelente momento para a reflexão sobre algumas importantes questões da
filosofia da educação. A discussão franca e aberta das diferentes visões da
educação que subsistem na escola pode eventualmente levar os professores a
entender melhor suas posições e as daqueles de quem discordam.
(*) Eduardo O C Chaves (eduardo@chaves.com.br) é Ph.D. em Filosofia pela Universidade de Pittsburgh (1972), Professor Titular de Filosofia da Educação da Universidade Estadual da Educação (1974-presente), e Coordenador da Comunidade Virtual de Aprendizagem na Educação EduTecNet (edutec.net).
(c) 2000 by Eduardo Chaves
Last revised: 02 May 2004