"Editorial"
Eduardo O C Chaves
Temos em mãos o que seria "O CAOS em Revista" do mês de Junho, mas que não o foi, por causa do aborto que sofreu. O Editorial, que naquela ocasião escrevemos, procurava dar um relato sucinto dos acontecimentos que culminaram na colocação, naquela oportunidade, de "O CAOS em Revista" sob a tutela da Congregação do SPS [Seminário Presbiteriano do Sul], fato este que, por sua vez, ocasionou o aborto mencionado.
Um tempo relativamente longo decorreu desde então. Vivemos em outro contexto: temos outro Reitor, temos outro Presidente no Supremo Concílio. A cúpola que dirigia os destinos da IPB [Igreja Presbiteriana do Brasil] foi trocada. Há uma nova direção.
Todos estes acontecimentos, todas estas mudanças, toda esta "renovação", pareceriam ser sinais de que a IPB rejuvenesce, reforma-se, atualiza-se, sofre uma renovação, no verdadeiro sentido do termo, sem as aspas indispensáveis ao emprego anterior da palavra. Mas, todos sabemos, isto não é verdade. A IPB preferiu, através da maioria dos representantes presentes ao Supremo Concílio, dar-se um outro rumo: o de lutar, em pleno século de viagens interplanetárias e de armas nucleares, como se fosse "remanescente de uma época de cavalaria", para usar a apta imagem de Dietrich Bonhoeffer [em Letters and Papers from Prison], isto é: usando uma linguagem que não é a nossa do século XX; valendo-se de meios de ação que mais se assemelham aos da Idade Média; pregando idéias que há um século já eram tidas como desatualizadas, anacrônicas, conservantistas, vetustas; empregando métodos de pressão e repressão que nos fazem lembrar a Santa Inquisição Medieval; sendo dirigida por uma cúpola que, no seu totalitarismo, faria Hitler tremer de inveja no túmulo; expressando-se através de um órgão oficial que nada fica a dever aos periódicos do Rev. Raphael Camacho e do Mr. Robert Rapp! A IPB chegou a este ponto. Ou, melhor dizendo, permitiu que a conduzissem a este ponto.
Lembro-me de uma frase de Goethe, lida algures, que diz: "Muitos preferem morrer a pensar". Na minha opinião, esta frase explica a razão de ter a IPB se deixado levar à situação em que se acha: "Muitos preferem morrer a pensar". A IPB já sofre, agora, e vai sofrer muito mais ainda, os resultados da "preguiça intelectual" daqueles aos quais se delegaram poderes para decidir a respeito dos destinos da Igreja. Isto porque, enquanto a maioria prefere morrer a pensar, há aqueles, poucos e raros, que quase morrem de pensar para descobrir meios de manipular a maioria não-pensante, a fim de que esta venha a servir a seus objetivos pessoais, egoístas, de "will to power". E o resultado, trágico, mas inevitável, a menos que os não pensantes se decidam a pensar por si, é que, muitas vezes, uma pessoa, que se proponha este alvo, consegue manipular uma multidão, quase sempre de boa fé, levando-a a satisfazer às suas aspirações (suas, bem entendido, do manipulador). É mais fácil, realmente, deixar que os outros pensem por nós; que nos ditem o que fazer; que decidam quais destinos devam ser os da Igreja; quais normas devam regê-la; quais doutrinas devam ser sua confissão. É o caminho mais fácil, o "caminho largo", mas aquele que leva à negação completa do dom da inteligência.
"Contudo", talvez diga alguém, "o prezado jovem está se esquecendo de algo muito importante: foi o Espírito Santo que fêz com que se deliberasse em Fortaleza como foi deliberado. Ou será que o irmão é dos 'modernistas' que não crêem no Espírito Santo?" Sim, muitos já disseram isto, e não só uma vez. E é aqui que se situa, no meu entender, a maior heresia dos "situacionistas" presbiterianos de hoje: a heresia de fazer a vontade soberana, ilimitada, perfeita de Deus identificar-se com sua finita, limitada, imperfeita, egoísta e pecaminosa vontade, a heresia de cercear os limites da ação divina, a heresia de orientar o Espírito Santo em lugar de procurar dele genuína orientação, a heresia de buscar Deus apenas como um meio útil na aquisição de um determinado objetivo e não como um fim em si, a heresia de colocar doutrinas e normas de conduta em nível superior à vontade específica de Deus para o nosso hic et nunc, a heresia de fazer com que a mensageira se torna mensagem, a heresia de tornar a serva maior do que o seu Senhor!
Parece que exagero. Provo, contudo. Tenho em mãos uma carta escrita pelo Conselho da IP [Igreja Presbiteriana] de Belo Horizonte, data de 2 de julho, quase dez dias antes do Supremo Concílio -- carta esta para cuja elaboração um de nossos colegas, especialmente chamado a Belo Horizonte, emprestou sua valiosa cooperação! A carta, que deveria ser enviada a todas as Igrejas Presbiterianas do Brasil, acompanhada de uma cópia do "Manifesto dos 15", reimpresso por aquela Igreja, denuncia em alto e bom som a "orientação modernista que os nossos Seminários vêm dando aos seus alunos [oxalá!], nossos futuros pastores". Depois de analisar a situação, o referido Conselho, encabeçado pelo Rev. Wilson de Souza, faz as seguintes sugestões aos Conselhos das Igrejas às quais se destina a carta:
"a) Ore e convide outros irmãos a orarem, pedindo a Deus uma solução certa para o problema, promovendo, se possível, reuniões de oração com esta finalidade.
. . . . .
c) Telegrafe AGORA e peça a outros irmãos para telefonarem HOJE ao Presidente do Supremo Concílio, solicitando solução urgente para os problemas dos nossos Seminários".
Até aí compreende-se. A aberração, contudo, vem depois, quando a carta continua:
"Esses telegramas poderão ter redações, mais ou menos, como estas:
-- 'Solicito SC tome providências enérgicas contra modernismo reinante nossos seminários'.
-- 'IP de (nome da cidade) espera que SC promova expurgo modernistas que atuam em nossos seminários'."
Mais do que em qualquer outro lugar, aqui se faz presente a heresia atrás mencionada. Aconselhava-se a orar, pedindo a Deus a solução do problema. Para que orar, entretanto, se a solução já estava decidida, como bem o expressam os "telegramas-padrão". Ei-la, clara, insofismável: EXPURGO dos que conosco não concordam. Esta solução já estava pronta, já havia sido tomada muito antes do Supremo Concílio. E do mesmo modo todas as outras. Aqueles belos apelos feitos pelo agora Presidente do Supremo Concílio, através de sua imprensa privada, para que a Igreja orasse, pedindo que o Espírito Santo orientasse o Supremo, eram desnecessários. As principais decisões e soluções já estavam no bolso de seu colete, Deus sabe já há quanto tempo! Uma prova inequívoca disto é o fato de ter sido designado relator da Comissão que iria estudar os problemas dos Seminários, ninguém menos do que o Rev. Wilson de Souza, o capacho atrás mencionado, que já se demonstrara parcialíssimo e preconcebido em relação ao problema. E a arbitrariedade acompanhou todas as outras decisões. Pobre Espírito Santo! Invocaram-no tanto, mas manietaram-no, cercearam-lhe a ação. Talvez tivesse ele uma outra solução para os problemas, talvez ele não fosse tão conservador quanto se dizem ser os atuais chefes da Igreja, mas seu parecer não foi aceito, talvez por ter sido expresso por alguém da ala contrária, talvez por não se identificar com os moldes dos "telegramas-padrão" e com os planos do partido vitorioso.
E assim caminha o tempo. A história, contudo, saberá passar seu julgamento (além de Deus que será bem capaz de passar o seu) sobre este negro período na vida da IPB. Enquanto, porém, o futuro não vem, para apresentar os vários aspectos e matizes da situação, é dever nosso, ao qual não nos podemos escusar, levantar uma voz profética contra o estado de coisas em que nos encontramos. "O CAOS em Revista" sempre se dispôs a isto. O artigo de Tristão de Athayde reflete o conflito das gerações. O de Alvino Alves, mais específico, é muito oportuno ao caracterizar a ortodoxia conservadora. "O Pequeno Inquisidor", colaboração anônima, recebida pelo Correio, ataca o problema ainda mais específico da "inquisição" que nos visitou aqui.
O Redator aproveita para comunicar que deixará o cargo, a partir do próximo número, em virtude de seu desligamento do Seminário, a partir de 5 de Setembro até o final do ano. Agradece a colaboração, o estímulo, e o incentivo que recebeu durante o tempo que dirigiu o jornal, e coloca-se, mais do que nunca, ao lado daqueles que, cientes de sua responsabilidade para com Deus e os homens, para com o homem do século vinte, procuram evitar que a Igreja se torne mais uma relíquia, entre outras, dentro de nossa história. Agradece ainda àqueles que programaram este número, e o realizaram, sem os quais ele não sairia.
E até breve.
O Redator
© Copyright by Eduardo Chaves
Last revised: 02 May 2004