Um Parecer sobre a Proposta de "Auto-Avaliação das Unidades"
Eduardo O C Chaves
Uma avaliação só faz sentido quando:
se sabe claramente o que avaliar;
se tem critérios/parâmetros de avaliação;
se sabe para que avaliar.
Na proposta se fala em avaliar "as unidades". Imagino que por "unidades" se tenha em mente "unidades acadêmicas". Que seja. Mas o que será avaliado nas unidades?
A proposta menciona alguns elementos.
Ela sugere que se faça uma "análise qualitativa" do corpo docente e do corpo discente, por exemplo. Mas por que não também uma análise quantitativa? Não se deseja chegar à conclusão de que a universidade tem muito professor para pouco aluno? E por que não avaliar o corpo de funcionários? Deseja-se fugir da constatação de que o número de funcionários da UNICAMP é uma aberração e que o serviço que prestam é, na média, abaixo da crítica?
A proposta fala também em avaliar o ensino, a produção cientifica, os serviços à comunidade, as instalaçäes, a biblioteca, os equipamentos. Mas avaliar em relação a que critérios ou parâmetros? Avaliar é verificar até que ponto foram alcançados certos objetivos, quão perto se chegou de certos parâmetros, considerados ideais. Quais são eles, no caso da UNICAMP?
Além disso, por que avaliar essas coisas e não outras? Por que não avaliar também o "clima sócio-emocional" e a motivação na UNICAMP? Por que não avaliar até que ponto o jogo e o envolvimento político da comunidade e das lideranças não prejudicam a atividade acadêmica?
Além disso, qual a finalidade da avaliação? Haverá recompensa ou punição para as unidades em decorrência da avaliação? Como a avaliação será "auto-avaliação", a recompensa ou punição (caso haja) será ministrada em função do resultado da auto-avaliação ou de sua honestidade? A unidade que admitir estar bem abaixo do que dela se esperava ganhará punição por mediocridade ou recompensa por honestidade?
Não vejo sentido em auto-avaliação, muito menos em avaliação, seja ela auto ou hetero, que não parta da avaliação dos indivíduos. Essa história de só haver avaliação de coletivos, e, ainda por cima, auto-avaliação, é uma maneira mal-disfarçada de evitar que sejam realmente avaliados os indivíduos, é uma tentativa de encobrir o sol com uma peneira, de tentar esconder o número elevado de professores e funcionários que nada fazem e/ou produzem.
Enquanto houver professores que recebam, em tempo integral, da universidade, durante mais de dez anos, para terminar um doutorado, ou mesmo um mestrado, nenhuma avaliação será coisa séria na UNICAMP. Quando se abre mão até mesmo do prazo generoso de quatro anos estipulado na versão original do Projeto Qualidade para que os professores que não possuem doutorado o concluam, perde-se qualquer seriedade de propósitos que pudesse haver numa proposta de avaliação.
Enquanto a UNICAMP não fixar prazos realistas para a redução do número de professores e principalmente de funcionários e parâmetros máximos para o comprometimento dos recursos orçamentários com despesas de pessoal, nenhuma avaliação poderá ser levada a sério. Para o número de alunos que tem, a UNICAMP não poderia ter mais do que 1.500 professores e 3.000 funcionários. Para que possa ser uma universidade séria, não pode comprometer mais do que 60% de seu orçamento com a folha de pagamento. Em quantos anos se pretende chegar a esses números? Nunca? Pretende-se chegar a outros números? Quais?
A sensação que se tem é que a proposta de "auto avaliação das unidades" é apenas mais uma tentativa de melhorar a imagem da UNICAMP -- mais uma idéia de sua eficiente assessoria de marketing. A UNICAMP vai aparecer nos jornais, nas revistas, até no Fantástico, como sendo a primeira universidade brasileira que se avalia. Do ponto de vista de marketing, valerá a pena: sempre haverá quem acredite.
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Last revised: 02 May 2004