Repensando a Informática em Ambientes de Educação Especial

 

Silvia Branco Vidal Bustamante
Coordenadora do Centro de Informática Educativa
Universidade Católica de Petrópolis
Comitê Assessor do PROINFO/SEED/MEC
Petrópolis. Rio de Janeiro
Brasil
Fax: 55 242 427747
e.mail: silvia@risc.ucp.br

 

Abstract

Informática e Educação Especial envolvem-se no contexto do Centro de Informática Educativa da Universidade Católica de Petrópolis, interligando-se com a mesma metodologia dos outros projetos desenvolvidos. Considerando a importância das tecnologias cognitivas e a necessidade de se trabalhar com os computadores dentro de uma pedagogia de reestruturação de conhecimentos ao invés de priorizar uma tecnologia de reprodução de informações, o trabalho com Informática nos conduz a uma metodologia pela qual toda Educação é um processo especial.

Estes projetos se desenvolvem com a atuação específica de Janine Cristina Coutinho de Souza, Orientadora Educacional e Mara Carneiro de Souza, Psicóloga. Ambas são Especialistas em Informática Educativa.

Introdução:

O Projeto de Informática Educativa da Universidade Católica de Petrópolis iniciou suas atividades em 1984 tendo como linha mestra ao longo destes anos, trabalhar inteligência e cognição através do uso de computadores como ferramenta.

A presença dos computadores na sociedade contemporânea transforma a escola num segmento apropriado para a inserção da tecnologia, ensejando pesquisas que investiguem cibernética e educação, considerando que cada vez mais os ambientes escolares estão mediados pela relação homem-máquina. Nesse contexto as tecnologias cognitivas (Baranauskas, 1993), tornam-se importantes elementos de mediação e de transformação da prática pedagógica convencional, buscando resgatar para a escola o uso da inteligência como origem e fonte do processo de conhecimento.

O Projeto de Informática Educativa da Universidade Católica de Petrópolis procura investir no pensamento e na criatividade do aluno e do professor utilizando as tecnologias da informática e da comunicação para resgatar a beleza de aprender e pensar como um trabalho interativo de descoberta e redescoberta da inteligência.

Não basta ter a informação diante de si para que ela se transforme em conhecimento. Torna-se necessário trabalhar com ambientes interativos onde a tecnologia atue como estímulo à cognição social (Nastasi, B. et alii 1990), à aprendizagem cooperativa e a descoberta do potencial escondido de pensamento em cada um dos elementos que interagem nos ambientes pedagógicos.

Tomamos como referencial de todos os projetos que desenvolvemos, o quadro que considera que os computadores voltam-se mais para uma pedagogia de reestruturação do conhecimento, que para uma tecnologia de reprodução de informações.

O Projeto de Informática e Educação Especial:

O Centro de Informática Educativa da Universidade Católica de Petrópolis, trabalha com Informática e Educação Especial desde 1988, abrangendo indivíduos portadores de necessidades específicas utilizando a metodologia Logo (Papert, 1985).

Sem constituir linhas de pesquisa experimental em sentido estrito, o projeto vem se desenvolvendo ao longo destes anos como investimento de natureza pedagógica, buscando resgatar a qualidade de vida do indivíduo especial.

O que se pretende abranger é o desenvolvimento qualitativo de funções residuais e funções alternativas que possam servir para integrar o portador de necessidades especiais.

Por outro lado a utilização de tecnologias avançadas de imagem, animação, som e comunicação não constituem o traço fundamental do projeto, tendo em vista que a relação homem-máquina é desprovida de significado se não for propulsora de uma referência que resgate a relação do ser humano consigo mesmo e com outros seres humanos (Bustamante, S. 1992 b).

A tecnologia por si mesma não representa garantia de reestruturações lógicas, ainda que possa desempenhar importante apelo quanto à motivação. Sua importância maior consiste em que se possam utilizar os computadores como próteses e como amplificadores da cognição (Battro, A. M. 1989 a).

Objetivos:

O que se pretende neste projeto é despertar caminhos interiores que levem a mobilizar o ambiente pedagógico no sentido da qualidade da aprendizagem como ferramenta adequada para desenvolver a inteligência.

Outra perspectiva importante do projeto consiste em nos permitir considerar que a educação como um todo não depende da tecnologia, mas da maneira pela qual os recursos disponíveis são implementados. Quaisquer que sejam os modernos recursos da cibernética nenhum deles será válido em área alguma se não se considerar como pressuposto que toda a Educação é um processo Especial.

Esses parâmetros são relevantes como investigação e como modelos de relacionamento onde, ao trabalhar com o computador aprende-se a diferença entre o homem e a máquina, buscando metodologias mais dignas para abordar o indivíduo deficiente e aqueles que, por condições marginais, podem apresentar dificuldades de acesso aos padrões de vida normal na sociedade.

Metodologia:

A metodologia utilizada para a reabilitação do indivíduo portador de necessidades especiais encontra no computador uma ferramenta para estabelecer o diagnóstico da inteligência. Esse diagnóstico no entanto não se realiza através dos testes convencionais de psicologia voltados para a psicometria.

A inserção desses testes no computador é sem duvida um recurso tecnológico poderoso. No entanto não é nesse poder que reside a riqueza do uso do computador.

O diagnóstico com que atuamos requer um processo longitudinal de acompanhamento pedagógico onde, através de ações e operações que o indivíduo deficiente possa realizar interagindo com o computador, este atue como espelho da mente.

Através da projeção figural na tela do computador é possível identificar como as estruturas lógicas estão sendo trabalhadas. Nas situações onde é possível trabalhar com a organização de procedimentos detecta-se o processo não apenas pela projeção figural, mas pela estruturação interna que gera a figura proposta como projeto ou como desafio.

Esse recurso é essencialmente válido no caso dos portadores de deficiência auditiva severa e no caso dos portadores de paralisia cerebral cujas funções lógicas não tenham sido atingidas pela lesão.

Os casos em que se pode diagnosticar estruturas lógicas intactas ou passíveis de recuperação representam uma área interessante de investigação dos processos cognitivos enquanto sofrem ou não interferência da perda sensorial ou motora.

A novidade apresentada pelas conquistas da tecnologia em hardware e software oferece excelentes recursos no que se refere à atualização cultural e á aquisição de informações. São veículos necessários à integração do ser humano à sociedade do nosso tempo.

Os recursos da Multimídia, da Internet e da Realidade Virtual enquadram-se neste contexto. No entanto o significado dessa utilização deve potencializar, no caso da Multimídia, a mídia do sujeito com capacidade de criar a superação dos seus limites, utilizando o pensamento como capacidade de criar e como fonte da mensagem que dá sentido à mídia.

Os recursos da Internet como rede de comunicação nos levam a buscar a incidência pedagógica sobre as redes neurais do indivíduo portador de deficiência, no intuito de torná-las capazes não apenas de receber, mas de estabelecer e criar condições de conhecimento e comunicação.

Quanto à tecnologia de Realidade Virtual utilizada como recurso terapêutico para que o sujeito se veja com imagem projetada sem as deficiências que possui, nosso trabalho incide no sentido de que o sujeito portador de deficiência trabalhe a virtualidade ou a possibilidade de entender o que lhe é real e operar em condições de superá-lo quanto à compreensão de suas limitações. Desta forma irá buscar não a realidade virtual oferecida artificialmente pelos recursos do computador, mas a realidade virtual de suas possibilidades.

Sendo portanto mais críticos e restritos no sentido da aceitação da mídia tecnológica, buscamos trabalhar com o computador para desenvolver não o Logo linguagem de programação, mas o Logo pensamento e linguagem.

Esse pensamento e linguagem tanto na Educação Especial como na educação como um todo podem utilizar a informática para resgatar para a escola o sentido perdido da aprendizagem autêntica e o significado verdadeiro do ser humano no tempo da tecnologia.

Os projetos que se dedicam à Educação Especial abaixo discriminados, envolvem indivíduos portadores de diversas necessidades, cada uma delas sendo diagnosticada através da interação com o computador em trabalho longitudinal.

1. Projeto Portadores de Deficiência Auditiva:

Desenvolve-se com duas turmas de alunos da Escola Municipal Santos Dumont, em Petrópolis, RJ. desde 1990. O projeto, além de possibilitar curso para deficientes auditivos volta-se para a sua integração social com indivíduos ouvintes, através dos recursos da comunicação total. No desenvolvimento das atividades do projeto não se utiliza a linguagem de sinais.

O computador é apenas uma ferramenta, não se objetivando de maneira direta o uso profissionalizante. No entanto, procura formar monitores capazes de atuar em ambientes computacionais de aprendizagem dentro da metodologia Logo (Papert, 1985), criando oportunidades de trabalho, restabelecimento do senso de poder pessoal e do poder de comunicação com a comunidade. Atualmente dois portadores de deficiência auditiva severa encontram-se atuando como "professores" para crianças, sendo que um deles já atua no processo desde 1993, monitorando dois grupos de crianças e adolescentes em nossos laboratórios.

As perspectivas de integração do portador de deficiência auditiva à vida profissional dependem de um desenvolvimento longitudinal e se apresentam como promissoras em pequena escala, no sentido de estabelecer a comunicação intra e interpessoal em padrões significativos para os objetivos do projeto. Essa integração deve ocorrer não apenas entre indivíduos portadores da mesma deficiência, mas enseja o estabelecimento de ambientes interativos que incorporem o portador de deficiência auditiva atuando em comunidades de pessoas ouvintes de acordo com as possibilidades que ele pode desenvolver.

2. Projeto Autismo :

O projeto autismo utiliza uma fundamentação que contraria o que normalmente se pensa sobre o uso dos computadores em educação: há hipóteses relacionadas a que, a criança em contato com o computador pode apresentar indícios de fechamento para o contato com o mundo exterior. Nesse caso, a máquina pode contribuir para que as predisposições ao isolamento sejam acentuadas, contribuindo para a formação de comportamentos estereotipados e agressivos não desejáveis ao ambiente educacional.

Ao contrário do que se poderia supor, este projeto trabalha com ambientes computacionais de aprendizagem visando a abertura do portador de autismo para o mundo exterior. Considerando a gravidade do problema em estudo, o trabalho que se realiza é lento com resultados bastante significativos ao nível de aquisição da linguagem escrita e falada, bem como dos primeiros sinais de comunicação com o mundo exterior.

Desenvolve-se desde 1993, em sessões isoladas com três indivíduos portadores de autismo em diferentes graus. Como experiência piloto trabalha, a partir de então com um autista desprovido de linguagem oral e alfabetização, tendo conseguido integrá-lo ao mundo da comunicação verbal escrita e falada. Trabalha também com autistas já em processo de socialização, marcados porém por rituais e comportamentos mecanizados que constituem sua estereotipia.

Em 1996, o portador de autismo que se caracterizou como experiência piloto em nosso centro, apresenta padrões de comunicação através da linguagem falada e escrita, bem como através da busca de canais de comunicação com as pessoas que participam do projeto, e com outras pessoas em outros ambientes.

Essa conquista gradativa é importante para o trabalho que está sendo realizado, tendo em vista que a criança no início do processo apresentou características de hiperatividade, ausência de linguagem escrita e falada, comunicando-se através de gritos sem conteúdo significativo.

Pelo quadro exposto, o trabalho utiliza a linguagem Logo, procurando, ao máximo desvincular o uso do computador de qualquer proposta de automação entre estímulo e resposta. Trabalha através da descoberta e da expressão pessoal, gerando interessante e inédita documentação do processo e da diagnose do desenvolvimento do autista através do uso do computador como ferramenta. Destaca o valor da metodologia Logo como técnica de abertura da mente exclusiva de um mundo isolado de objetos e pessoas, para um mundo que é diferente do subjetivismo, onde cada um possa ser capaz de perceber e receber a existência do outro.

3. Projeto Síndrome de Down:

Desenvolve-se no Centro de Informática Educativa da Universidade Católica de Petrópolis, desde 1990, buscando abordagem alternativa ao treinamento, para que o portador de Síndrome de Down possa desenvolver-se e integrar-se como pessoa na família, no ambiente escolar e na comunidade em que vive.

Utiliza o computador para desenvolver as funções lógicas que podem ser ampliadas ao invés de serem treinadas, estimulando a sociabilidade, a descoberta e o comportamento criativo, necessários à integração social do portador de Síndrome de Down. Trabalha com 6 crianças em orientação de desenvolvimento longitudinal, onde os resultados são obtidos a longo prazo, dentro da sociabilidade que normalmente permite uma interação não muito difícil com os recursos do computador e da Linguagem Logo.

As atividades são sugeridas pelo ambiente Logo através de pequenos desafios que atuam sobre a função lógica residual objetivando integrá-la a outras atividades que o portador de Síndrome de Down seja capaz de realizar individual e comunitariamente. O objetivo não é profissionalizar, mas desenvolver a riqueza interior da criança Down, através de projetos que utilizem o computador como proposta de desafios mediando a descoberta do que existe dentro da própria criança, como possibilidade de realização.

O acompanhamento longitudinal tem permitido verificar o enriquecimento de suas potencialidades através da metodologia interativa onde o computador é apenas uma ferramenta para o desenvolvimento de outras atividades interligadas à sua valorização como Pessoa.

A relevância deste projeto reside também na integração do portador de Síndrome de Down com outros indivíduos que podem aprender a aceitar os seus padrões de comportamento, orientando-os no entanto a uma conduta passível de integração sem superproteção.

Os resultados obtidos através deste trabalho apresentam-se como motivadores em relação a um ambiente que nos permite descobrir outras abordagens para a prática pedagógica que não se restringem ao treinamento. O que se propõe neste contexto é explorar as experiências que o portador da síndrome é capaz de realizar e enriquecer o próprio ambiente com os recursos utilizados pelo sujeito para empreender uma aprendizagem que é significativa para ele mesmo, para seu grupo, para a família e a comunidade em que vive, resgatando interna e externamente o significado de uma existência e de uma aprendizagem interativa.

4. Projeto Paralisia Cerebral:

O projeto teve início em 1992, e atualmente trabalha com 6 crianças da Sociedade Pestalozzi de Petrópolis. Representa uma das áreas de mais difícil abordagem, visto que os indivíduos portadores de paralisia cerebral apresentam características físicas distintas, dependendo da área lesada e do grau de comprometimento do cérebro.

Em alguns desses indivíduos, encontramos profundos déficits na psicomotricidade, o que torna difícil a interação com o computador, a manipulação do mouse e do teclado; outros apresentam apenas dificuldades da psicomotricidade fina, sendo ambos, ainda assim passíveis de uma orientação que procura ao máximo ser não diretiva, buscando no sujeito o impulso para vencer os obstáculos na interação com o meio ambiente. Em nenhum dos casos utilizamos teclados especiais ou metodologias que nos induzam a fazer pelo aluno o que ele possa fazer por si mesmo.

Utilizando o computador dentro de metodologia centrada no aluno, o projeto visa ao desenvolvimento de funções cerebrais alternativas que possam substituir as funções prejudicadas por lesões específicas.

Considera a plasticidade do cérebro e os motivos para agir que independente de dificuldades motoras ou cerebrais possam significar processos de aprendizagem e de atuação significativa no ambiente em que vivem. Trabalha ao nível da dificuldade de cada indivíduo, levando-o a crescer em autonomia e sem superproteção, para que possa vencer as dificuldades de natureza lógica ou psicomotora relacionada à paralisia das funções cerebrais.

O computador atua como prótese em relação ao desenvolvimento cognitivo, individual e social do portador de paralisia cerebral, atuando também como elemento integrador do portador de deficiência física em atividades que possam ser por ele exercidas de maneira adequada.

O principal enfoque do projeto consiste em utilizar os computadores como amplificadores da cognição (Battro, 1989), fazendo que a consciência de possibilidades lógicas e motoras, ainda que residuais, possa ser trabalhada no sentido da valorização pessoal e da interação do portador de paralisia cerebral e deficiência física com a comunidade escolar e com a sociedade que normalmente não está preparada para entendê-lo e recebê-lo como ser humano.

5. Projeto Deficiente Mental Moderado:

Desenvolve-se com crianças da rede pública estadual no município de Petrópolis, desde 1988.

Os alunos que fazem parte deste projeto são normalmente alunos de classes especiais que não apresentam o desenvolvimento necessário para a participação em turmas que se orientem por um currículo normal.

Sem apresentarem maiores problemas na área da psicomotricidade fina, caracterizam-se por dificuldade de concentração, linguagem, cálculo e funções relacionadas à aquisição de símbolos e signos necessários à representação do conhecimento e à sua utilização na vida escolar e cotidiana.

O projeto utiliza o computador como forma de possibilitar a diagnose da dificuldade e o desenvolvimento dos resíduos que permitam a localização das funções espaço-temporais do portador de deficiência mental moderada. Busca permitir que possa atuar no mundo em que vive, não dentro das limitações provocadas pela deficiência, mas dentro de condições de estímulo que lhes permitam resgatar a autonomia e a realização de pequenas tarefas rotineiras.

Estimula o desenvolvimento de estruturas lógicas, procurando expandir a capacidade de realização, sem incidir diretamente sobre o reforço, o treinamento ou a aquisição de conteúdos escolares, mas voltando-se sobretudo, para o domínio do lógico, a incidência sobre a auto-imagem e o senso de confiança.

Embora o resultado do projeto nesta área seja muito lento e a longo prazo, os objetivos não consistem em preparar para a profissionalização, nem em estabelecer uma prática de utilização dos computadores no sentido de inteirá-los com a tecnologia da informática. O que se pretende é resgatar a possibilidade de integração social e a viabilidade da integração consigo mesmo, permitindo que se expandam as possibilidades de atuação na escola e em situações de vida que sejam distintas do isolamento e da alienação.

O projeto permite também resgatar ao professor de classe especial a motivação para o trabalho que realiza onde, apesar dos poucos resultados alcançados é possível verificar que a quantidade do que se consegue é insignificante perante a qualidade de cada momento em que a criança conseguiu superar a si mesma.

6. Projeto Meninos de Rua:

Considera-se esta área como um trabalho de Educação Especial, tendo em vista que os meninos de rua são portadores de carências que provocam seu comportamento desviante. Comparando-os com outros deficientes, os meninos de rua são de certa forma também portadores de necessidades especiais, pelas deficiências que apresentam e pelo muito que exigem em função do pouco que lhes é dado pela estrutura marginal de sua vida.

Desenvolve-se no Centro Comunitário de Nogueira, Petrópolis, RJ, desde 1993, atendendo em média a 80 crianças por ano.

A característica dessas crianças é fortemente marcada pela vivência na rua, apresentando índices de passagem à delinqüência que merecem investimento para reverter o processo.

Considerando-se a dificuldade de interagir com o menor em risco de delinqüência, o projeto é considerado de relevância para a sociedade em geral priorizando o uso do computador para atuar sobre os padrões lógicos que orientam o comportamento marginal, levando a situações onde os desafios a serem solucionados conduzam à reestruturação do raciocínio de modo a caminhar de padrões subjetivos e desintegrados, a padrões de objetividade lógica e social.

Na fase atual estão sendo preparados os Educadores de Meninos de Rua que atuam no Centro para trabalharem como multiplicadores do projeto. As diversas oficinas participam de forma integrada com as propostas da Oficina de Informática.

O projeto, agora em uma nova fase, volta-se para o uso do computador como ferramenta de profissionalização.

O projeto Meninos de Rua desenvolve-se também desde agosto de 1995, na Casa dos Meninos de Petrópolis. Este centro atende a 200 crianças que possuem relativo referencial familiar mas se caracterizam por eventual risco de desintegração social e perda do sentido de lar.

As diversas atividades interligam-se ao desenvolvimento de situações de aprendizagem que possam ser transferidas para situações de vida, objetivando relacionar as estruturas lógicas solicitadas pelo uso do computador à vivência profissionalizante característica deste centro de trabalho com o menor.

Em 1998, o projeto expandiu-se, através da interação com o Projeto Vem prá Casa, promovido pela Secretaria de Ação Comunitária da prefeitura Municipal de Petrópolis, que integrou no novo laboratório da Casa dos Meninos de Petrópolis, diversas oficinas, atendendo a crianças que moram na rua, a crianças que estudam na Casa dos Meninos e as crianças do Centro Comunitário de Nogueira, cujo laboratório encontrava-se obsoleto. Neste centro da comunidade, estão sendo desenvolvidos os trabalhos do Centro de Informática Educativa, com 140 crianças e adolescentes. Ainda em 1998, a interação com a Comissão Municipal de Atuação Comunitária - COMAC, permitiu que o trabalho envolvesse outros 80 adolescentes, com o desenvolvimento de oficinas de informática para a formação de alunos carentes, dentro de uma perspectiva de uso de computadores voltado para a integração do indivíduo na sociedade, permitindo a descoberta da máquina mas utilizando o computador para o resgate do ser humano e o encontro consigo mesmo e com o Outro, em busca de uma dimensão mais humana do uso da tecnologia.

Repensando a Informática em ambientes de Educação Especial:

"Em um mundo de máquinas, não somos máquinas, nem buscamos as máquinas apenas. Buscamos pessoas que esperem nosso tempo e superem conosco nossas limitações:

Apenas a máquina não pode resgatar para mim, o sentido perdido da existência que a sociedade parece me negar. Necessito alguém que acredite naquilo que de bom posso fazer apesar da marginalidade em que me vejo envolvido.

O computador não pode fazer por mim, o que eu mesmo não posso realizar: não poderei ouvir através do computador os sons que não escuto, nem poderei dizer as palavras que não sei e que dentro de mim são silêncio. Apenas poderei escrever o que não ouço e trabalhar meus conceitos a partir da lógica que pouco a pouco vou construindo na difícil busca entre objetos, palavras e conceitos.

As janelas do mundo exterior que são fechadas dentro de mim não se abrirão apenas através da máquina. É necessário quem escute meus gritos ou minha linguagem mecânica e os transforme em compreensão até que eu chegue a perceber o outro e o mundo que me cerca, interagindo com ele e transformando o meu grito em palavra.

Minhas deficiências não serão substituídas pela eficiência da máquina e meus limites não serão em mim jamais quantitativamente superados. Não passarei a andar, se não puder fazê-lo, nem poderei escrever, se meus dedos não coordenarem o movimento da escrita.

Poderei apenas pensar e sorrir, ainda que com pensamento limitado e com sorriso talvez distorcido pela deficiência ou pela dificuldade que me atinge.

Naqueles que me conduzem, encontro pessoas de coração aberto que, ao invés do automatismo da máquina me permitem encontrar a alegria perdida, apesar da minha marginalidade, apesar da minha segregação, apesar dos meus limites, apesar do meu grito incompreensível e apesar do meu silêncio.

Em um mundo de máquinas, que elas nos ajudem a encontrar pessoas que sejam diferentes delas: pessoas que saibam ter a esperança que muitas vezes não temos e que nessa esperança nos convidem a encontrar no limite da nossa existência a beleza escondida de nossas possibilidades."

Equipe do Projeto:

Janine Cristina Coutinho de Souza, Mara Carneiro de Souza Noel, Fábio Gelatti , Daniela dos Santos Alves, Frederico Mendonça Motta, Alexandro Caputo Doufen, Cristina Stanitz Teixeira, Luis Gustavo Ferreira da Silva Costa, Wenderson Fani, Cátia Cristina Carrano Gastadel, Caroline Dias Galheigo, Andréa Abreu dos Santos, Fernanda de Melo Pacheco e Viviane Almeida de Souza.

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